Doçaria de tradição popular em Terras do Demo

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Olá, bem-vindo. Esta é a história das histórias e, tal como sempre, eu aqui, João Paulo Secadura, apresento o Alberto Correia, que em Viseu, na região Centro, vai nos continuar a falar, como ontem falou, dos doces, sobretudo dos doces com origem conventual, das guloseimas, inspirado pelos textos de Aquilino Ribeiro. Hoje vai continuar nas Terras do Demo, mas vamos focar-nos na doceria de tradição popular. Bem-vindo, Alberto. Vamos a isso. Mais uma crônica de fazer água na boca.
Esse largo espectro de gente do povo que nas Terras do Demo, nessa geografia que integra os concelhos de Moimenta da Beira, Sernancelhe e Vilanova de Paiva, cuja população era constituída por lavradores de pequenas ou médias posses, artífices de diversificados saberes, escrivães ou mangas de alpaca residentes na vila, padrecuras, alguns com amas habilidosas, apetrechados do sentido do paladar como os demais, inventou para si padrões de doceria sustentados por influências conventuais que lhes chegaram antes ainda da extinção das casas monásticas, como o arroz doce ou a aletria, ou tão-só a partir do seu génio, que soube encontrar os ingredientes certos no seu quotidiano, a transmissão familiar, substituindo aqui, por muito tempo, os cadernos de receitas. Ainda aqui, como no quadro conventual, é no festivo calendário da folhinha que se sustenta uma criteriosa prática doceira que privilegia a Páscoa, o Natal ou o mais laico Carnaval, equivalendo à celebração do Orago, às festas do patrono da casa religiosa, às efemérides dos atos de passagem, batizado ou casamento, à comemoração da imposição do hábito por ocasião da entrada para o cenóbio, ou quando da profissão de monge ou recolhida, ou até, se quisermos, das festas do abadeçado. Num quadro mais mundano, não pode esquecer-se o tempo da feira, da romagem ou de outra viagem qualquer, onde em merendeiros de folha ou caixinhas de cartão, quando não em invólucros de folhas de jornal, se acondicionam as guloseimas costumadas. Como não pode esquecer-se a sopa doce servida nesse festivo, por mais que duro, trabalho da malha a mão coal do trigo ou do centeio, ou o arroz doce servido aos abades tosquiadores no anual trabalho da tosquia, e que jamais faltará em jantar de festa de Orago ou banquete de casamento. As filhós ou filhoses ganham o estatuto de paradigma na obra de Aquilino, como no acontecer da vida real ali evocada, e a frequente e diversa nomeação das mesmas traduz a importância do manjar no universo rural das Terras do Demo. Constituem presença habitual na consoada do Natal. Basta ver as referências que Aquilino lhes tece e evoca-se a noite de Natal em que o estudantinho Amadeu se perde nos caminhos da serra, indo bater à quintarola onde é acolhido e onde à lareira, em vastas sertãs de cobre, frigiam as filhós e rabanadas da Noite Boa, o que o leva a confessar que nunca lhe souberam tão bem as docerias da consoada. No outro passo, era Natal em Seitosa, desabafa o lamuriante Luís Rola: "Falta-nos aqui uma coisa para a consoada ser completa", disse o Rola. "Já sei, as filhós. Os ovos estão pela hora da morte". Ainda que Florinda soubesse que não era o preço dos ovos a razão daquela ausência. E o receituário vasto e já indiscriminado ia ficando nas mãos de habilidosas donas, algumas feitas mestras de valia e de verdade, que as lavradeiras chamavam na hora de casar a filha ou de obsequiar conviva de particular agrado com a fina travessa de um apurado leite creme finamente torrado, a fidalga delicadeza de um arroz doce enfeitado com raminhos de canela, a macieza do pão-de-ló, tão leve que se desfaz na boca, a ténue ramassa das cavacas, que lembra as longínquas mãos das recolhidas de Freixo. Menos exigente, mas ainda assim merecedor de cuidado, era o amassar das filhós, o azeite ferventa das rabanadas, o ar apetecível dos biscoitos, as gostosas texturas da aletria ou do pudim de ovos, o refinado paladar da sopa doce, dos milhos doces ou do serrabulho doce da matança. Um saber fazer que se tornou herança e permanece, e ora se transmite na letra de uma receita que apenas ganhará vida se soprada como a greda de que já Vénus fez Adão.
Muito bem, mais uma vez com água na boca. Despedimo-nos, Alberto, por mais esta crônica tão boa, desta vez sobre os doces de tradição popular nas Terras do Demo. E marcamos encontro amanhã. Bem-haja, Alberto Correia, e até amanhã.
Até amanhã.
observador



