Bad Bunny: o que precisa saber antes dos concertos em Lisboa

Bad Bunny prepara-se para se estrear em Portugal com dois concertos no Estádio da Luz, em Lisboa, marcados para terça e quarta-feira, 26 e 27 de maio. É um dos espetáculos mais esperados do ano e o porto-riquenho vem apresentar Debí Tirar Más Fotos, disco editado em 2025 e distinguido como Álbum do Ano na mais recente cerimónia dos Grammys.
Em topo de forma, o músico de 32 anos deveria ter vindo pela primeira vez a Portugal em 2020, quando foi anunciado como um dos destaques do festival Primavera Sound, no Porto. A pandemia acabou por suspender aquela edição do evento e todas as atuações que já estavam confirmadas.
Seis anos depois, no momento em que chegou ao topo da indústria musical e após a marcante performance no intervalo da Super Bowl, Bad Bunny faz finalmente a sua estreia em palcos nacionais. Eis tudo o que precisa de saber sobre os concertos dos próximos dias.
Ainda há bilhetes?Os únicos bilhetes que ainda aparecem como disponíveis no site da Blueticket são para a segunda noite, 27 de maio, nos setores 41 e 42 do terceiro piso do Estádio da Luz, com “vista lateral limitada”. Estão à venda por 102,01€. Este mês tinham sido disponibilizados novas entradas para a secção Los Vecinos, uma zona especial com vista privilegiada para o palco, mas esgotaram rapidamente.
A promotora dos espetáculos, a gigante norte-americana Live Nation, anunciou que as portas abrem pelas 17 horas e que o concerto tem início às 20 horas. O espetáculo deve aproximar-se das três horas de duração. A organização aconselha os fãs a chegarem antecipadamente ao recinto, tendo em conta os tempos de espera e as filas longas que são esperadas nas diferentes entradas do Estádio da Luz.
▲ Bad Bunny na primeira noite da série de concertos que deu em Porto Rico no verão de 2025
Kevin Mazur/Getty Images
Os concertos acontecem no Estádio da Luz, a casa do Sport Lisboa e Benfica, em Lisboa. A circulação de carros e o estacionamento nas redondezas estarão condicionados, pelo que é recomendado o uso de transportes públicos. Uma das melhores opções será o Metro de Lisboa. Se tiver bilhete para o relvado, golden circle ou piso 3, o ideal será sair na estação do Colégio Militar/Luz. Se, pelo contrário, tiver um ingresso para os pisos 0 e 1, opte por sair na estação do Alto dos Moinhos, do outro lado do estádio. Ambas pertencem à Linha Azul. Também poderá deslocar-se de autocarro da Carris, táxi ou TVDE, devendo seguir as mesmas indicações das entradas consoante o seu bilhete.
A CP terá um desconto especial de 30%, válido entre 25 e 28 de maio, mediante apresentação do bilhete para o concerto, nos comboios com destino a Lisboa. Também há um preço especial de 3€, de ida e volta, para quem viajar nas linhas urbanas de Sintra e Azambuja. Na madrugada de 27 para 28 de maio, haverá um comboio extraordinário a partir da estação de Santa Apolónia com destino a Porto-Campanhã, para o qual também é possível usufruir do desconto de 30%.
Uma alternativa para quem se desloca de fora da Área Metropolitana de Lisboa é comprar um bilhete para os autocarros da Rede Expressos. A empresa lançou igualmente uma campanha especial para os fãs: há descontos de 20% sobre as viagens de ida e volta com origem ou destino nos terminais rodoviários da Gare do Oriente e Sete Rios. A Flixbus anunciou também que irá reforçar a sua oferta de autocarros nestes dias.
O que não pode levar?Na lista dos objetos proibidos estão máquinas fotográficas profissionais, tripés, tablets, GoPros, gravadores, bebidas alcoólicas, muletas (sem atestado médico) ou perfumes.
Bad Bunny iniciou a digressão europeia com dois concertos em Barcelona, em Espanha, no Estádio Olímpico de Montjuïc, a 22 e 23 de maio. Embora a maior parte do alinhamento se tenha mantido de uma noite para a outra, com algumas trocas na ordem das canções, os espetáculos não foram iguais — pelo que há sempre um grau de imprevisibilidade e surpresa em relação aos concertos de Lisboa.
▲ De fato elegante, Bad Bunny apresenta-se acompanhado por uma banda de 16 músicos, entre percussionistas, teclistas, contrabaixistas, uma secção de sopros e um coro
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Na primeira noite, Bad Bunny recebeu como convidada surpresa a artista espanhola Bad Gyal (com quem partilhou Yo Perreo Sola e Da Me) e interpretou inesperadamente La Santa, o tema que assinou em 2020 com Daddy Yankee. Ao longo de toda esta tour, iniciada em novembro e que já passou por diferentes países da América Latina e pela Austrália, o artista tem interpretado “canções exclusivas” em cada noite — temas improváveis, da sua discografia, que não irá repetir em nenhuma outra performance da digressão.
Na segunda noite em Barcelona, o único convidado foi o seu compatriota Bryant Myers, com quem cantou três temas — desta vez, o tema exclusivo foi Triste.
O que é que tem acontecido em palco?De fato elegante, Bad Bunny apresenta-se acompanhado por uma banda de 16 músicos, entre percussionistas, teclistas, contrabaixistas, uma secção de sopros e um coro. A primeira parte do espetáculo acontece no palco principal, com destaque para os temas mais próximos da salsa, com uma instrumentação orgânica.
Existe depois um segmento num segundo palco, mais intimista, uma “Casita” cor-de-rosa porto-riquenha a meio do público, onde brilha o repertório mais reggaeton e trap, com os beats pré-gravados e o fulgor eletrónico a substituírem os instrumentistas. Em Barcelona, várias figuras públicas de renome, incluindo jogadores do FC Barcelona como Lamine Yamal e Robert Lewandowski, assistiram ao espetáculo a partir da própria La Casita, uma espécie de super zona VIP. Depois de Bad Bunny ser assistido por Los Pleneros de La Cresta, uma das formações porto-riquenhas que colaboraram em Debí Tirar Más Fotos, a ação volta ao palco principal para uma série de reggaetons mais lentos e românticos, que por sua vez são acompanhados por duas dezenas de bailarinos.
▲ No palco dos Grammys, em fevereiro, quando foi distinguido com o prémio de Álbum do Ano, a primeira vez para um disco gravado noutra língua que não o inglês
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“O que Bad Bunny fez ontem à noite no Estadi Olímpic Lluís Companys foi colocar a cultura porto-riquenha no centro da história e reivindicar o contributo musical de um pequeno país que gerou dois dos géneros mais arrebatadores das últimas décadas: o reggaeton e a salsa. E, claro, se alguém devia presidir à consagração mundial desta fértil ilha das Caraíbas tinha de ser ele: aquilo que mais se aproxima de Elvis Presley que a música latino-americana pode ter dado. O último rei da pop não é branco nem negro, mas sim latino. E nasceu num país do qual não estava previsto que pudesse surgir um artista de tais dimensões. Mas Bad Bunny conseguiu ocupar todos os espaços reservados às estrelas mais absolutas do firmamento pop sem renunciar à sua língua, o castelhano, nem à sua identidade boricua [natural de Porto Rico]”, escreveu no jornal espanhol El Diario o repórter Nando Cruz.
Nas páginas do La Vanguardia, por sua vez, Sergio Lozano escreveu que Bad Bunny “hasteou em Barcelona a sua bandeira para avisar toda a Europa que, como [Bob] Dylan cantou um dia, os tempos mudaram”.
O grande final estava reservado para a homónima Debí Tirar Más Fotos, que Ramon Súrio descreveu como uma “comunhão total” na reportagem da segunda noite no La Vanguardia. “Uma canção rítmica e ao mesmo tempo melódica, entoada em plenos pulmões, que é a melhor forma de compreender porque — fazendo um paralelismo com o nome de El Gran Combo de Puerto Rico, uma das melhores orquestras da história da música latina — Bad Bunny se tornou: O Grande Fenómeno de Porto Rico.”
E um pouco de história sobre Bad Bunny?Benito Martinez Ocasio, nascido em 1994 em Bayamón, cresceu em Vega Baja, filho de um camionista e de uma antiga professora. Sempre ouviu muita música em casa, da salsa ao merengue, e cantou no coro da igreja até completar 13 anos. Após terminar a escola secundária em 2012, ingressou no curso de Comunicação Audiovisual da Universidade de Porto Rico, com o objetivo de se tornar locutor de rádio. Em paralelo, trabalhava num supermercado, mas acabou por deixar o emprego e os estudos.
Como é que aparece a música?Era um hobbie desde a adolescência, mas foi a partir de 2016, quando já tinha 22 anos, que as coisas começaram realmente a tornar-se sérias. Inicialmente um precursor do trap latino, cruzando os sons e a cadência vocal deste subgénero do rap com as influências da música latina que sempre ouviu e o rodeou, começou a lançar regularmente temas soltos no SoundCloud. Diles chamou a atenção de DJ Luian, com quem assinou um primeiro contrato para se tornar artista da sua editora independente.
O progresso foi rápido a partir daí. Em 2017, já estava a colaborar com a estrela colombiana Karol G, e tornou-se o anfitrião do primeiro programa de rádio da Beats 1 falado em castelhano, intitulado Trap Kingz. No ano seguinte, estreava-se com o álbum X 100pre e juntava-se a J Balvin e a Cardi B no super êxito I Like It, tornando-se definitivamente numa figura de proa da nova música latina, altamente influenciada pelo reggaeton e a contaminar os mundos da pop e do hip hop.
▲ Depois de Barcelona e de Lisboa, a digressão de Bad Bunny segue pela Europa
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O reconhecimento massivo chegava um par de anos depois, em 2020, quando foi convocado por Shakira e Jennifer Lopez para atuar como seu convidado no intervalo da Super Bowl, juntando-se a uma armada latina que estava a tomar de assalto a grande indústria da música global, cada vez menos caucasiana e baseada no inglês.
Foi também quando lançou o segundo álbum, YHLQMDLG (que é como quem diz “Yo Hago Lo Que Me Da La Gana”, ou “eu faço o que me apetece”), e começou a preparar outras incursões na indústria do entretenimento. Estreou-se como ator na série da Netflix Narcos: México, e pouco depois faria um papel no filme Bullet Train, numa altura em que já tinha um terceiro disco, El Último Tour Del Mundo, o primeiro álbum em espanhol a atingir o topo da tabela da Billboard. Aliás, Bad Bunny foi o artista mais ouvido do mundo no Spotify em 2020, 2021 e 2022, numa altura em que já conquistara uma audiência verdadeiramente global, da enorme América Latina à Europa e à Ásia.
Mantendo um ritmo fora de série, entre 2022 e 2023 presenteou os fãs com mais um par de álbuns: Un Verano Sin Ti (o primeiro disco em espanhol nomeado para o Grammy de Álbum do Ano) e Nadie Sabe Lo Que Va a Pasar Mañana.
O que mudou com o álbum “Debí Tirar Más Fotos”?Com uma discografia vasta e uma ascensão meteórica, a caminho de uma consolidação que parecia certa, nada fazia prever que Bad Bunny lançasse nos primeiros dias de 2025 um álbum que o iria fazer chegar ainda mais longe, catapultando-o definitivamente para o topo dos topos, aumentando significativamente o seu impacto cultural, social e até político: chegava a era de Debí Tirar Más Fotos.
O seu sexto álbum é, mais do que nunca, uma reaproximação às raízes e uma autêntica carta de amor a Porto Rico e à sua cultura. Bad Bunny explorou diferentes géneros locais, do reggaeton à salsa, passando por tradições como a plena, o jibaro ou a bomba, para um disco que — além de temáticas mais comuns como o amor, a celebração ou a família — aborda a complexa identidade porto-riquenha enquanto território sob a jurisdição norte-americana, tantas vezes subjugado graças ao seu particular estatuto político, com uma forte diáspora espalhada pela América que tantas vezes sofre discriminação, mesmo que teoricamente também estejam no seu país.
Da gentrificação à perda da memória coletiva em torno das tradições, Debí Tirar Más Fotos é um disco com uma forte consciência política e social que ao mesmo tempo se tornou um tremendo êxito mundial por ser um disco mais orelhudo e com instrumentos orgânicos — menos digital e direcionado para a pista de dança —, com uma mensagem nostálgica de ligação às origens, de amor próprio e por aqueles que nos rodeiam, pela comunidade.
▲ Com a bandeira de Porto Rico, durante o espectáculo do intervalo da Super Bowl, em fevereiro deste ano
Getty Images
O disco tornou-o novamente no artista mais ouvido do planeta no Spotify em 2025. Bad Bunny soma, hoje, cerca de 100 milhões de ouvintes mensais só nesta plataforma. A impactante performance no intervalo da Super Bowl, em fevereiro, reforçou ainda mais o seu estatuto enquanto estrela pop mundial, com uma mensagem a passar e uma relevância cultural extraordinária, até pelos gestos que foi demonstrando ao longo do último ano. Debí Tirar Más Fotos começou por ser apresentado ao vivo numa residência de 30 datas no Coliseo de Puerto Rico José Miguel Agrelot, na capital porto-riquenha de San Juan, sendo que as primeiras nove datas eram exclusivamente reservadas à população local.
A história de Bad Bunny não é apenas a ascensão de uma nova estrela na grande máquina pop, mas um ponto de viragem definitivo na cultura global, tendo em conta como levou as práticas artísticas de uma pequena ilha caribenha ao centro mediático do planeta, celebrando a resiliência da tradição e o uso da língua nativa face à crescente globalização que inevitavelmente tudo uniformiza a partir das culturas dominantes. Benito Martinez Ocasio é um músico no apogeu da sua popularidade e relevância, no pódio da música mundial, que aterra nos próximos dias em Lisboa.
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