A amieira, obra-prima dos cesteiros de Vildemoinhos

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Olá, seja muito bem-vindo. Já sabe, esta é a História das Histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura e, em Viseu, Alberto Correia continua a desfiar-nos as suas memórias, as suas crónicas, tudo o que interessa saber e reter da região Centro. Desta vez vamos falar da amieira, uma obra-prima dos cesteiros de Vile de Moinhos, para os lados de Viseu. Vamos a isso. Bem-vindo, Alberto.
Quando Grão Vasco, à volta de 1500, pintava em quadros de maravilhosas tintas a história de Cristo para o altar-mor da Catedral de Viseu, quis representar essa aventura dolorosa e poética da fuga da Sagrada Família para o Egito. Um anjo vestido de branco conduz pela arreata o burrico manso por esses caminhos fora, caminhos de Cristo, chamaram-se mais tarde, onde Dimas, um salteador atrevido, atacava viajantes desprevenidos. O anjo leva na mão uma vergasta ligeira de pau de castanho, mas é apenas um jeito de aprendiz de arrieiro, porque o burriquito que um lavrador de Belém emprestou a José, e lhe chamavam de trote ligeiro, lá vai de passo certinho. Maria, a mãe do menino, senta-se no dorso do burrico, à maneira de uma mulher de Aveira. Não tem qualquer prática e só por milagre não cai, porque o menino, que leva ao colo, não deixa, e José, que caminha ao lado, vai atento. Para a demorada viagem, levam uma merenda leve, pão e queijo, tâmaras e romãs, um resto dos presentes que os pastores ofereceram ao menino logo que souberam do nascimento. E tudo isso Maria meteu numa cestinha de fino lavour. A verga macia tinha a cor do mel e a mãe do menino gostava de guardar lá os entreténs da costura e os cueiros lavados de Jesus que as mulheres de Belém lhe tinham oferecido. Grão Vasco sabia a história toda da viagem, mas não a contou toda neste quadro. Pintou apenas um instante de descanso naquela fuga apressada. Já não havia romãs na cestinha, nem queijo, só uns restos de pão seco no borral de José, que ia dando ao burrico. O anjo espera que José colha de uma pereira da borda do caminho as peras temporãs, que mete na cesta até enchê-la. Ao longe, há ceifeiros segando o trigo nas terras de um senhor que habita essa nobre residência com jeito de castelo que se vê ao fundo. O feitor repara nos viajantes e não se importa. Decerto, o anjo, de algum modo, lhe disse que aquele menino é o verdadeiro rei de todos os senhores que habitam em castelos. Com a cestinha cheia, lá irão de rotina outra vez. José apanha o bordão, põe na cabeça o chapeirão de palha e ele e Maria vão comendo peras frescas pelo caminho fora, enquanto o menino dorme. Maria não sabe que a cestinha que Grão Vasco lhe pôs nas mãos com a merenda da viagem se chama amieira e que foi ele que a comprou a um velho cesteiro de Vile de Moinhos para guardar os pincéis.
Muito bonita esta referência que nos conta mais deste autêntico tesouro nacional que é guardado no Museu Grão Vasco, este com a fuga da Sagrada Família para o Egito, com tudo o que nos ensina sobre a indumentária, os costumes, a comida, os adereços, os hábitos de 500 aplicados à Sagrada Família. Muito curioso neste museu.
Um espetáculo para vir ver.
É lindo e bem retirado, bem destacado deste museu que o Alberto Correia tão bem dirigiu durante quase 20 anos. Muito bem, marcamos então o encontro para amanhã. Amanhã mais. Alberto, muito obrigado pela sua crônica. Até amanhã.
Até amanhã.
observador
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