Pacote laboral: As 24 horas que mudaram Ventura

“Quem vai acabar com todas as subvenções vitalícias deste País foi [sic] o Chega. Foi o Chega e acabará com todos eles. Quando, ao fim do dia, o País se perguntar, e de toda a discussão e gritaria, o que conseguimos nas férias, nos lutos, na proteção do trabalho, na licença parental, saberão que não foi nem o PS, nem o Livre, nem o Bloco, foi o Chega e temos muito orgulho em fazer isto por Portugal, pelos trabalhadores e pelos pensionistas deste país.” André Ventura falava, inflamado, durante o debate sobre o pacote laboral, dando como vitórias algumas das medidas que estava a negociar com a AD como moeda de troca pela aprovação de uma mudança profunda nas leis do trabalho. “Amanhã as pessoas perguntar-se-ão ‘quem é que nos conseguiu mais dias de férias ou corrigir o erro na amamentação ou o pagamento do trabalho por turnos a um milhão de pessoas?’”, insistia. As palavras de Ventura convenceram Hugo Soares, líder da bancada parlamentar do PSD, de que o acordo estava à vista e garantia a maioria de direita necessária. “Por muito que vos custe, amanhã esta proposta vai ser aprovada”, vaticinou Soares, provocando a esquerda. Menos de 24 horas depois, o Chega trocou as voltas à AD e “o pacote foi ao chão”, como se lia nos cartazes nas manifestações da CGTP.

Nessas 24 horas, André Ventura ponderou, negociou e mediu as pressões que vinham de vários lados. No final, o “empurrão” que a CGTP pedia para deitar abaixo a reforma do Governo viria mesmo do interior do Chega, com ameaças de desfiliação e ataques fortes de militantes e simpatizantes do partido que fizeram Ventura perceber que o risco de aprovar leis tão impopulares era grande e podia traduzir-se num desaire eleitoral. “Percebeu-se que o nosso eleitorado estava maioritariamente contra”, resume à VISÃO um dirigente do Chega, que diz que o partido tem crescido “em zonas tradicionalmente mais pobres” onde não se percebia como podia Ventura apoiar medidas que iam contra os trabalhadores. O dirigente do Chega perdeu a conta às vezes que ouviu na rua coisas como: “Vocês não podem fazer isto passar, porque isto é contra os trabalhadores.” A sua inclinação natural seria a de aprovar o pacote laboral, por isso atribui a oposição das bases do Chega à ideia de que “as pessoas não estavam informadas”. Questões como a retirada de direitos na amamentação ou a não reintegração no posto do trabalho depois de um despedimento ilegal estavam entre as medidas mais questionadas pelos simpatizantes do Chega nos contactos de rua com deputados e dirigentes.
Visao


