Do cessar-fogo a mísseis no céu. Uma viagem agitada a Israel

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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Do cessar-fogo aos mísseis no céu, a viagem agitada do Observador a Israel. Depois de quase dois meses de cessar-fogo, no passado domingo, ao início da noite, o Irão lançou mísseis em direção a Israel. Em território israelita, soaram as sirenes de alerta para ataque aéreo. Aconteceu durante toda a noite. As forças de defesa comunicaram rapidamente que identificaram os mísseis iranianos e que deram início aos trabalhos para interceptar esses ataques. Em diferentes cidades israelitas, as sirenes soaram e os iranianos apontaram para uma resposta ao bombardeamento de Beirute por parte de Israel. Os líderes israelitas foram rápidos a alertar para a necessidade de responder e Donald Trump entrou em cena. O presidente norte-americano primeiro pediu aos dois lados para voltarem à mesa das negociações. Depois, falou ao telefone com Benjamin Netanyahu e quando a conversa terminou, Trump disse à imprensa que é ele quem manda e que Netanyahu não terá outra escolha senão aceitar um cessar-fogo com o Irão. Israel fez exatamente o contrário e disparou ataques contra o Irão. Os mercados voltaram a reagir, abriram em queda nesta segunda-feira, com Donald Trump preocupado e a falar constantemente na necessidade de travar os disparos. O Irão terá conseguido atingir bases aéreas israelitas. Israel, por sua vez, diz que conseguiu atingir um complexo petrolífero no sudoeste do Irão. Depois de praticamente dois meses de cessar-fogo, em poucas horas, retomam desta forma as hostilidades e os receios internacionais em torno do conflito entre israelitas e iranianos. Foi no início destas horas de conflito que o jornalista do Observador, José Carlos Duarte, aterrou em Tel Aviv. Estava ainda no aeroporto quando soou o primeiro alarme. Vamos perceber como se viveu o regresso das hostilidades em território israelita. Vou conversar com o jornalista José Carlos Duarte. Eu sou o Miguel Cordeiro e esta é a história do dia de terça-feira, 9 de junho. José Carlos, bem-vindo.
Olá, Miguel.
Foi uma chegada atribulada a solo israelita.
Sim, foi uma chegada atribulada, problemas na imigração, mísseis aqui no norte de Israel, pouco tempo depois de ter chegado ao país, portanto, foi realmente uma chegada bastante atribulada. A situação estava bastante calma até há dois, três dias, mas a situação rapidamente se deteriorou e ficou bastante mais complexa. Isto teve a ver com o facto de Israel ter atacado Beirute e o Irão prometeu retaliar e atacar Israel, o território de Israel. E eu apanhei todo este ataque e retaliação que aconteceu este domingo.
Sim, tu partiste ainda com a situação de cessar-fogo em vigor e quando chegaste isso acabou por mudar de figura. Mas o que aconteceu durante a noite? Nós sabemos de sirenes, de alerta para ataque aéreo, mas o que aconteceu depois? Estavas ainda no aeroporto, tiveste de entrar num bunker, houve algumas medidas de segurança que tiveste de seguir?
Sim, durante a madrugada já estava no hotel e no hotel onde estou a dormir, cada piso do hotel tem um bunker. É uma pequena sala, não é propriamente uma coisa muito sofisticada, mas protege dos ataques aéreos. É uma sala relativamente pequena, com paredes brancas, com três cadeiras e basicamente é aí que os hóspedes do hotel ficam quando ouvem os alertas, os telemóveis tocam, todos os telemóveis têm uma espécie de mecanismo em que recebemos os alertas e o próprio hotel onde estou hospedado também tem um sistema próprio que nos diz para ir para o bunker e temos que ficar lá até ordem em contrário. Nós recebemos uma ordem, quer no telemóvel, quer do hotel, para sair do bunker. O que aconteceu esta madrugada foi a primeira sirene tocou por volta quase das 06:00 a.m, menos duas horas em Lisboa, portanto, tocou. E como tinha sido a minha primeira vez, foi aquela que eu mais dei atenção, ainda por cima estava a dormir profundamente, portanto é toda uma logística complicada acordar com barulho do telemóvel e depois também do hotel. Há ali uns segundos em que fiquei: "o que eu vou fazer?", mas obviamente que nós já tínhamos sido instruídos pelo hotel e pela própria organização da viagem que estou a fazer para quando ouvirmos o barulho, para irmos logo pro abrigo. Peguei nas minhas coisas, peguei no cartão e no telemóvel, o cartão para entrar no quarto e fui pro bunker e lá fiquei até que recebi a ordem em contrário. Depois voltei pro quarto e por volta das 07:00 a.m foi outro alerta, exatamente o mesmo procedimento. Só que aqui nesta segunda vez já estava menos gente, porque aquilo que acontece em Israel é que muita gente desvaloriza. Ou seja, o primeiro tem o efeito choque, mas depois começa a desvalorizar os ataques que se seguem.
Portanto, isto já nos ataques que aconteceram durante o período da manhã e da situação de ataques e desses alertas do período da manhã. Tu estás em Israel a convite da Associação Judaica Europeia. Tinhas algum plano de atividades para esta segunda-feira? Esse plano acabou por ser alterado?
Sim, o plano foi alterado. Este primeiro dia era dedicado ao norte de Israel, que é a área que está mais bombardeada e sob fogo em Israel. Portanto, o programa teve que ser alterado. Viemos ao norte de Israel, só que o programa incluía uma visita a uma base aérea das IDF, das Forças de Defesa de Israel, algo que acabou por não acontecer, obviamente, por causa da situação. Sendo que existem relatos na imprensa iraniana que esta base aérea que nós íamos visitar foi mesmo atacada no domingo, portanto, era bastante difícil irmos lá. E depois também tínhamos uma espécie de um panorama sobre o Líbano, mais perto da fronteira, sítio ao qual também não acabamos por ir, por toda a situação de segurança e pelos perigos que existem. Ainda assim, vim ao norte de Israel, mas mais longe da fronteira. Ou seja, é o norte de Israel na mesma, consegue-se ver mais ou menos o Líbano, porque não é muito longe o sítio onde fui, mas o plano teve que ser alterado para algo mais dentro de espaços onde há abrigos. Conseguimos ir a um miradouro ainda ver o Líbano, ou seja, ver a outra parte da fronteira, mas foi isso o máximo, e ainda estamos a cerca de 20 km da fronteira, portanto, é uma situação um pouquinho mais segura do que propriamente irmos lá.
Sim. Decerto é que esta situação de ataques no arranque desta semana coloca uma interrupção no cessar-fogo que estava a durar há praticamente dois meses. Qual é a percepção da população israelita perante este ataque? Há algum receio de regressarem ataques constantes ou se, por outro lado, na verdade, sendo Israel, há já uma preparação natural devido aos diferentes ataques dirigidos a Israel ao longo dos últimos meses, Guilherme?
Sim, eu acho que há aqui uma preparação e aquilo que eu vi foi uma normalidade. Ou seja, aquilo que aconteceu foi após os ataques de madrugada, depois houve alguns de manhã, Tel Aviv, onde estou hospedado, estava totalmente normal. Ou seja, havia pessoas na rua, os autocarros estavam a circular, o trânsito estava normal. Ou seja, eu acho que os israelitas já vivem esta situação há cerca de três anos e, portanto, já estão totalmente acostumados a esta rotina. Obviamente que cria disrupções, obviamente que cria momentos em que as pessoas têm que ir para abrigos, que é o que incomoda mais, é esta necessidade de se ir para uma sala e não saber quanto tempo se vai lá ficar. Mas de resto, a vida já corre e decorre com muita naturalidade. Não vi quase alarme nenhum. E já há pessoas que arriscam, ouvem as sirenes e não vão pra abrigos, mas isso também depende de cada um. Mas nota-se uma normalidade.
Isso acontece também na região Norte, onde passaste algum tempo?
Na região Norte, não tanto. Geograficamente, está mais perto do Líbano, está mais perto dos alvos do Hezbollah, e portanto, as pessoas têm muito poucos segundos, cerca de 15 a 30, para fugirem para os abrigos, porque como os rockets ou os mísseis são lançados muito perto, eles caem mais rapidamente. Ou seja, há aqui um tempo de reação muito inferior e, portanto, aqui o medo é maior, porque grandes cidades como Tel Aviv, mesmo Haifa, estão mais longe do Líbano ou do Irão. Mas aqui, como há a proximidade ao Líbano e aos mísseis e aos rockets do Hezbollah, há realmente algum receio de que caia perto e, portanto, há aqui uma maior tensão. Mesmo assim, eu não vi nada de extraordinário, mas também lá está, isto é uma viagem organizada, isto é uma press trip e, portanto, também não fomos aos sítios mais críticos e vulneráveis, porque também em termos de segurança não é aconselhável.
Sim, naturalmente. Esta interrupção no cessar-fogo mostra também o estado atual da relação entre os Estados Unidos da América e Israel, ou melhor, na verdade, entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Isto é algo que é discutido entre israelitas?
Sim, é discutido. Nós aqui na viagem que estou a fazer e da Associação Judaca Europeia, discute-se mesmo isso. Os israelitas estão também a tentar entender o que Donald Trump quer, a sua postura, mas eles têm uma visão muito própria do presidente norte-americano, que é ele é imprevisível. Não se sabe muito bem o que se pode contar, seja por talento inato que ele tem de negociar, seja por ser uma pessoa imprevisível, eles partem do princípio que nunca sabe muito bem quando ou como é que Donald Trump vai reagir. Isso é realmente aqui discutido. Claro que israelitas que são politicamente mais nacionalistas, às vezes ficam mais desiludidos com algumas declarações de Donald Trump, principalmente quando ele insiste em que o conflito tem que terminar e que Israel vai ter que ceder em algumas questões. Mas eu acho que aqui a questão é que eles veem Donald Trump como um líder que muda de opinião rapidamente e eles sabem perfeitamente que têm de se adaptar a este estilo muito imprevisível e tentar ganhar vantagem nos momentos em que Donald Trump pode até beneficiar Israel. Portanto, aquela impressão que eu fico é esta. Ou seja, eles sabem que é uma pessoa que muda de ideias facilmente, mas aproveitam quando a maré está baixa, quando eles sabem que a situação está melhor pra eles, para tentarTrazer água ao seu moinho e para tratar a situação securitária de Israel melhor, pelo menos é a sua perspectiva. E eu acho que sinto isso, ou seja, eles talvez ainda estão a ver este momento em que no domingo à noite Donald Trump ligou para o primeiro-ministro de Israel e disse para parar com os ataques e que não ia permiti-lo, como uma fase menos positiva da relação entre os dois líderes. Mas isso não significa que ele não seja um aliado, mas isso não significa que ele nos próximos dias possa fazer outra coisa totalmente inversa e possa beneficiar Israel.
Até porque há aqui uma questão de timings, não é? Basta pensar que o mundial começa esta semana, há as celebrações dos 250 anos da independência norte-americana, há aqui muita coisa a acontecer nestas próximas semanas.
Exato, eles sabem que Donald Trump é de marés e sabem perfeitamente que às vezes não vão surfar a melhor onda, mas já estão um bocadinho acostumados. Tal como uma guerra já dura há três anos, eles também já estão um bocadinho acostumados a esta mudança de opinião constante por parte do presidente norte-americano. É aquilo que eu sinto e estas últimas interações e tudo aquilo que aconteceu nas últimas horas é isso que eu sinto. Eles sabem que realmente isto foi uma fase menos positiva, mas amanhã pode ser diferente.
Israel e Irão já disseram, entretanto, que as hostilidades entre os dois países voltaram a parar, volta a vigorar o cessar-fogo, mas Israel também diz que as operações no Líbano são para continuar, independentemente da posição iraniana. Este é um ponto indiscutível para os israelitas?
Sim. Aliás, quando eu fui ao norte de Israel, naquele mirador, era possível ouvir a artilharia. Era uma coisa que se ouve ainda a uma distância considerável à qual eu estava, mas ouve-se a artilharia. No sul do Líbano, o conflito vai efetivamente continuar. Eu acho que aqui a linha vermelha para o Irão são os ataques a Beirute, são os ataques aos alvos do Hezbollah no sul de Beirute, que é a capital do Líbano. Acho que no sul do país há aqui um acordo implícito que eles vão continuar os combates, com mais ou com menos intensidade, mas estes combates vão continuar nos próximos tempos. Não é bem claro o que é que vai acontecer, mas acho que um possível acordo de não agressão é apenas aéreo, porque no sul do Líbano, em termos terrestres, a ofensiva poderá continuar e não sabemos também o que é que vai acontecer em termos de ataques aéreos nas próximas horas. Portanto, há aqui um compromisso de ambas as partes, mas os compromissos podem cair muito facilmente e as coisas mudam muito rapidamente. Esta guerra já dura há três anos e já se sabe que as coisas mudam muito facilmente. Portanto, acho que não é garantido que não vá haver ataques esta noite, seja de Israel para o Irão, do Irão para Israel. Tudo pode mudar e tudo está num estado muito variável.
José Carlos, obrigado. Bom trabalho em solo israelita e que tenhas um regresso menos atribulado.
Obrigado.
O José Carlos Duarte é jornalista do Observador e está em Israel a convite da Associação Judaica Europeia. Iranianos e israelitas continuam a alimentar um conflito com razões existenciais. Cada um dos lados já apontou, por várias vezes, para a intenção de aniquilar o adversário. Donald Trump, desta vez, apela às negociações. Aproximam-se dias agitados para o presidente norte-americano. O Mundial de Futebol, nos Estados Unidos da América, México e Canadá, começa já na quinta-feira. Depois, no dia 14 de junho, Trump celebra 80 anos de vida e para este dia está agendada uma grande festa na Casa Branca com combates de UFC. Os Estados Unidos da América também já estão em período de comemoração dos 250 anos da independência. Celebrações que vão ter o momento alto no próximo dia 4 de julho, o Fourth of July, feriado nacional. Para lá de tudo isto, os Estados Unidos da América não querem agitação nos mercados na semana em que a SpaceX, de Elon Musk, espera conseguir a maior oferta pública inicial de sempre. A empresa espera arrecadar mais de US$75 mil milhões. Por todas estas razões, e também devido às eleições intercalares que se aproximam, Donald Trump pede calma a Telavive e a Teerão. Resta saber se a diplomacia norte-americana pode mesmo evitar uma nova escalada no conflito do Médio Oriente. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Rafael Pego. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Miguel Cordeiro. Até amanhã.
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