Lula penaliza população de baixa renda, sua base eleitoral, com inflação e juros altos

A inflação em 12 meses chegou a 5,53% em abril, o maior índice em dois anos, segundo o IBGE. O aumento de preços afeta principalmente famílias de baixa renda, base eleitoral de Lula, e obriga o Banco Central (BC) a manter uma política monetária restritiva, com juros mais elevados.
Diante da inflação persistente, o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou novamente os juros na segunda semana de maio. A taxa Selic foi para 14,75% ao ano, maior nível em 19 anos. Embora tecnicamente necessária para conter a inflação, a medida traz consequências severas para a população mais pobre.
Com juros mais altos, o custo do crédito aumenta substancialmente, encarecendo financiamentos, empréstimos e compras parceladas – recursos muitas vezes usados pelas famílias mais vulneráveis para aquisição de bens essenciais. Desde agosto, quando começou o atual ciclo de alta na Selic, até março a taxa média de juros nas operações de crédito para as pessoas passou de 2,35% para 2,56% ao mês, a mais alta desde julho de 2023.
O resultado é um ciclo perverso: a alta nos juros, necessária para conter a inflação, acaba agravando ainda mais a situação financeira dos mais pobres. Segundo relatório de abril da Confederação Nacional do Comércio (CNC), 77,6% das famílias brasileiras estão endividadas, maior parcela desde agosto passado. Conforme o mesmo levantamento, 29,1% têm dívidas em atraso e 12,4% afirmam não ter condições de pagar o que devem.
Os juros elevados devem persistir por um longo tempo. A ata divulgada pelo Copom em 13 de maio sinaliza que a manutenção será necessária para assegurar a convergência da inflação à meta de 3%.
O ponto médio das expectativas do mercado financeiro para o IPCA em 2025 estava em 5,51% no último boletim Focus, divulgado na segunda (12), cerca de um ponto acima do teto da meta. A mediana de 2026 estava em 4,5%, exatamente no topo.
Governo Lula estimula a demanda, pressiona inflação e favorece juros altosBanco Central e Lula estão em direções opostas. O primeiro tenta conter a inflação via juros altos. O governo, por sua vez, vem anunciando medidas que atuam no sentido oposto, estimulando a demanda e pressionando ainda mais os preços.
A liberação do saque extraordinário do FGTS, a mudança nas regras do crédito consignado na folha de pagamento de trabalhadores do setor privado e a ampliação do programa Minha Casa, Minha Vida para aqueles que ganham até R$ 12 mil injetam recursos na economia em um momento em que a atividade econômica já mostra bastante dinamismo.
O Monitor do PIB do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre) indica crescimento anualizado de 3,1% até fevereiro, enquanto o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) revela expansão ainda maior, de 3,8% nos 12 meses encerrados em fevereiro. Esse aquecimento da economia, combinado com estímulos governamentais, alimenta o ciclo inflacionário.
Adicionalmente, o aumento do risco fiscal e as incertezas sobre a sustentabilidade das contas públicas contribuem para a desancoragem das expectativas de inflação. Analistas econômicos apontam que a frágil execução do novo arcabouço fiscal compromete a eficácia da política monetária, exigindo juros ainda mais altos para compensar a percepção de risco.
Inflação persistente tem impactos desiguais para a populaçãoA alta nos preços ao consumidor não é sentida igualmente por todas as classes sociais. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), braço do Ministério do Planejamento, mostra que a inflação para famílias de renda muito baixa – com rendimento domiciliar mensal inferior a R$ 2,2 mil – foi de 2,59% nos quatro primeiros meses do ano. Para as de alta renda, com ganhos superiores a R$ 22 mil, ficou em 2,21%. O IPCA geral foi de 2,48%.
A diferença ocorre porque os itens que têm maior aumento de preço são justamente aqueles com maior peso no orçamento das famílias mais pobres. Nos últimos 12 meses, as maiores altas ocorreram em alimentos básicos (o preço do café subiu 80,2% em um ano, o óleo de soja subiu 22,8% e as carnes, 22,3%), transportes por aplicativo (+19,6%) e itens de saúde e cuidados pessoais (alta superior a 7%).
Para as famílias de baixa renda, esses aumentos comprometem uma parcela ainda maior do orçamento já limitado, reduzindo significativamente seu poder de compra.
Serviços estão entre os maiores vilões da inflação e alimentam juros altosDiferentemente de ciclos inflacionários anteriores, quando alimentos eram os principais vilões, o atual motor da inflação é o setor de serviços, com alta de 7,7% nos últimos 12 meses. O fenômeno está diretamente ligado ao aquecimento do mercado de trabalho, que registrou taxa de desemprego de 7% em março – o menor nível para o mês desde o início da série histórica em 2012.
Esse bom momento acaba realimentando o problema. Segundo o IBGE, a prestação de serviços teve um crescimento anualizado de 7,7% em março, o maior desde novembro de 2023.
Dois segmentos registraram forte desempenho e aceleração no crescimento: transportes, serviços auxiliares de transporte e correios (5,2%) e serviços de informação e comunicação (9%). A expansão deste segmento foi a maior desde julho de 2022.
Já o volume de vendas do comércio varejista ampliado, que inclui carros, motos autopeças e materiais de construção, registrou crescimento anualizado de 3% em março, após cinco meses de queda ou estabilidade. Destaque para o segmento de materiais de construção, que saltou de uma alta em 12 meses de 0,4% em abril de 2024 para 6,8% em março de 2025.
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