Seleção em modo descafeinado e pãozinho sem sal

Três jogos, uma goleada e dois empates sofríveis. Com serviços mínimos e uma greve generalizada ao futebol de ataque, está cumprido o “primeiro Mundial” que tanto concentrou o foco do selecionador Roberto Martínez no arranque da maior prova de seleções. Se fosse política, o desempenho nesta fase de grupos poderia ser descrito como “poucochinho”, expressão fetiche de António Costa. Frente à Colômbia, na madrugada deste domingo, a exibição não foi além de uma espécie de descafeinado com um pãozinho sem sal.
A precisar de um triunfo para conquistar o primeiro lugar do Grupo K e encontrar um caminho mais benéfico na fase que se segue, a eliminar, Portugal voltou a desiludir. Raramente mostrou energia suficiente para investir forças no meio-campo adversário, insistindo em trocas de bola inofensivas e travando logo à partida situações potencialmente favoráveis. Defender primeiro, atacar quando calhar.
É certo que os títulos alcançados pela Seleção Nacional, quer o Europeu de 2016, quer as duas Ligas das Nações, não primaram pela estética do futebol jogado, mas, com Roberto Martínez, é cada vez mais uma verdade de La Palice que a criatividade e a ousadia são bens raros para serem usados com parcimónia.
Amorfa, perdida nas ideias e confusa nas intenções, a equipa das Quinas deixou-se dominar pela seleção cafetera. Num jogo em que nada tinha a perder, uma vez que o apuramento para os 16 avos-de-final estava previamente selado, Portugal nem sequer arriscou. Duas iniciativas a fechar a primeira parte, desperdiçadas por Bruno Fernandes e João Félix, e outra de Rafael Leão, já nos descontos finais, ficaram muito aquém da avalanche ofensiva dos colombianos, que trouxeram cafeína para o campo desde o primeiro minuto, quando desperdiçaram, por John Córdoba, soberana oportunidade para inaugurar o marcador.
Uma equipa descrente
No calor húmido de Miami, os sul-americanos entraram com a lição estudada, explorando as superioridades numéricas nas faixas laterais para semearem o caos no último reduto português. Antes do descanso, jogadores como Bruno Fernandes e João Félix, mas também Nuno Mendes e Rúben Neves, já davam sinais de dificuldades físicas para ajudarem na organização defensiva. Os próprios colombianos evidenciavam desgaste face às difíceis condições meteorológicas.
No arranque da segunda parte, com as entradas de Diogo Dalot e de João Neves para os lugares de João Cancelo e Rúben Neves, Roberto Martínez começou a suster melhor as dinâmicas do adversário, mas não por muito tempo. Richard Ríos e Luis Suárez, lançados à passagem dos 60 minutos, renovaram os níveis de cafeína e de alento, com Portugal a voltar a passar um mau bocado, enfiado nas trincheiras como uma equipa de segunda ou terceira linha, descrente no seu valor e rendida à superioridade do rival.
Antes da última iniciativa de Rafael Leão, que até poderia ter proporcionado uma vitória caída do céu, não fosse a finalização desacertada, a Colômbia marcou por John Arias, mas o lance acabaria anulado por um fora-de-jogo microscópico. Era o culminar de uma pressão que fazia adivinhar o golo, apenas evitado por exibições inspiradas da dupla de centrais, Rúben Dias e Renato Veiga, e sobretudo do guarda-redes Diogo Costa, que garantiu o 0-0 final.
O capitão Cristiano Ronaldo passou ao lado do jogo, mas o que fica é a imagem de um conjunto de jogadores que parece não saber como movimentar-se para criar desequilíbrios no último terço do campo. A vontade de não perder sobrepõe-se ao desejo de ganhar, mesmo quando uma derrota ou um empate nada mudam e a vitória pode abrir horizontes mais promissores.
Como segundo classificado do Grupo K, Portugal vai entrar no “segundo Mundial”, a fase a eliminar, frente à Croácia, em vez do Gana de Carlos Queiroz, como aconteceria se tivesse batido a Colômbia. Depois, em caso de sucesso, entra na órbita de uma Espanha nos oitavos-de-final e de um Brasil nos “quartos” (em vez de uma Suíça e de uma Argentina), mas isso já é pensar muito à frente nesta fase do torneio, com tanto talento por ainda despertar. Talvez o café colombiano possa ajudar.
Visao



