Pedro Sánchez é o político mais azarado do mundo?

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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Pedro Sánchez é o político mais azarado do mundo?
Señores pasajeros, bienvenidos a Madrid.
Este voo acabou de aterrar em Madrid, vindo de Caracas, na Venezuela.
En nombre de Plus Ultra, esperamos que hayan disfrutado de nuestro servicio.
A companhia aérea é a Plus Ultra. E eu vou repetir o nome, porque é possível que nunca tenha ouvido falar dela: Plus Ultra. E a razão porque esta companhia aérea pouco conhecida é importante, tem a ver com mais um escândalo político que voltou a salpicar Pedro Sánchez. Uma decisão tomada pelo governo espanhol durante a pandemia deu origem a uma investigação que passa por interesses venezuelanos, tráfico de influências, branqueamento de capitais e falsificação de documentos. E no centro de tudo isto, uma figura histórica do PSOE, ex-presidente do governo de Espanha e mentor de Pedro Sánchez. Falamos de José Luis Zapatero.
Quiero reafirmar que toda mi actividad pública y privada se ha desarrollado siempre con absoluto respeto a la legalidad.
Neste episódio, vou conversar com o investigador e politólogo Diogo Noivo para sabermos que caso é este, como aparece Zapatero na fotografia e como isto corrói ainda mais a já frágil liderança do atual presidente do governo espanhol. Eu sou o Pedro Benovides e esta é a história do dia de quinta-feira, 21 de maio. Olá, Diogo, bem-vindo.
Olá, Pedro.
Então vamos começar aqui do princípio. De que caso é que nós estamos a falar quando falamos deste caso em concreto que afeta Zapatero?
Estamos a falar do resgate de uma companhia aérea, o que nos leva a março de 2021. Em março de 2021, ainda em plena pandemia, o governo espanhol de Pedro Sánchez decidiu resgatar, do ponto de vista financeiro, uma companhia aérea chamada Plus Ultra. O resgate foram 53 milhões de euros, e o resgate em si já levantava algumas dúvidas. Por quê? Porque estamos a falar de uma empresa, de uma companhia aérea, cujos capitais são maioritariamente venezuelanos, cujo conselho de administração é maioritariamente venezuelano, e de uma pequena empresa que, segundo li na imprensa à época, tinha pouco mais do que cinco aeronaves. E, portanto, é estranho, ou foi estranho à época, que se usasse um fundo público, que é o Fundo de Apoio à Solvência de Empresas Estratégicas.
Estamos já agora, só pra situar os ouvintes que estiverem distraídos com as datas, isto são os anos da pandemia.
Isto são os anos da pandemia, sim. Portanto, em plena pandemia, com todas as dificuldades que existem, usaram 53 milhões de euros de dinheiro público pra resgatar uma pequena companhia venezuelana. Isto, naturalmente, suscitou algumas dúvidas. Não foi claro pra ninguém por que este resgate estava a acontecer. E logo naquele momento, os partidos de direita, PP e Vox, mas também uma associação da sociedade civil muito ligada à direita radical, chamada Mãos Limpas, decidiram apresentar uma queixa pública contra este resgate. Essa queixa acabou arquivada. Isso é muito importante, porque um dos argumentos que o Partido Socialista Espanhol está a usar agora, depois de sabermos que Zapatero foi formalmente acusado, é dizer que esta acusação, no fundo, é uma urdidura da extrema-direita, que isto parte tudo de uma queixa da extrema-direita. Ora, isto não é verdade. Há, de facto, organizações de direita radical que apresentaram queixa, mas essas queixas foram todas arquivadas. De onde é que nasce este caso, então? Nasce em 2024, quando o Ministério Público espanhol é contactado pelos Ministérios Públicos de França e da Suíça. França e Suíça estavam a fazer investigações a branqueamento de capitais venezuelanos, essencialmente para fugir às sanções que impediam sobre a Venezuela e também alguns crimes conexos. E nessas investigações francesas e suíças aparece o nome Plus Ultra, a tal companhia aérea e, portanto, contactam as autoridades judiciais espanholas, que a partir daí iniciam uma investigação que leva então agora a esta acusação formal de Zapatero.
Agora a questão aqui é: estamos a falar de 2021, Zapatero já não era primeiro-ministro, ele tinha sido primeiro-ministro muito tempo antes. Como é que o nome dele aparece então colado a esta história?
Aparecem escutas, aparecem mensagens, aparecem interceptações de comunicações e por uma razão simples: desde que José Luís Rodríguez Zapatero deixou de ser presidente do governo, o primeiro-ministro, dedicou-se a ser uma espécie de embaixador oficioso do regime venezuelano no mundo. Zapatero era muito próximo de Maduro, o anterior presidente da Venezuela, e funcionou como uma espécie de embaixador itinerante, defendendo os interesses da Venezuela, seja em instituições europeias, seja junto de empresas. E, portanto, o que nós ficamos a saber através desta investigação é que Zapatero intercedeu a favor, ou pelo menos é esse o argumento do Ministério Público, a favor deste resgate, desta companhia aérea, usou para tal um amigo seu, uma espécie de testa de ferro, para conseguir esse resgate, e que, por ter conseguido o resgate, Zapatero recebeu quase dois milhões de euros. Um milhão e meio pagos diretamente a ele e outro meio milhão pago às suas filhas, através de uma agência de publicidade e marketing que as suas filhas tinham.Portanto, quer pelo circuito do dinheiro, quer por interceção de chamadas, mensagens, e-mails, está convencido o Ministério Público espanhol que Zapatero não só é o responsável por este resgate peculiar, como terá recebido até 2 milhões de euros por ter conseguido o resgate.
Por ter feito esse trabalho de mediação, não é?
Sim. De utilização da sua influência junto do governo espanhol. E importa aqui recordar que Zapatero é uma espécie de mentor e preceptor de Pedro Sánchez. Aliás, Pedro Sánchez no livro que escreveu chamado "Terra Firme", diz mesmo que a maioria que o levou a ele, Pedro Sánchez, ao poder, se deve em grande medida ao apoio que obteve de Zapatero. E Pedro Sánchez é também um continuador da agenda programática que Zapatero tinha enquanto primeiro-ministro. Portanto, Zapatero é uma figura essencial para Pedro Sánchez. E alegadamente, terá usado essa influência que tem sobre o governo espanhol para traficar influências e beneficiar com esse tráfico de influências.
Antes de irmos à questão de Pedro Sánchez, que é obviamente uma das questões essenciais deste ciclo noticioso que envolve Zapatero, há aqui a questão da Venezuela. Em Espanha, dá a ideia que a Venezuela é uma espécie de tema quente, onde entra a Venezuela a coisa divide as águas também.
Sim, divide as águas por variadíssimas razões. A relação que Espanha tem com a Venezuela não é exatamente igual, mas é relativamente parecida com a relação que Portugal tem, por exemplo, com Angola. E não temos que fazer um esforço muito grande de memória para nos lembrarmos de períodos em que Angola também foi um tema muito sensível em Portugal. E portanto, com a Venezuela passa-se algo muito semelhante. Mas o problema ou a sensibilidade do assunto Venezuela foi potenciado porque há uma grande imigração venezuelana em Espanha. E essa imigração tem dois lados, portanto, as pessoas que eram oprimidas e perseguidas pelo regime, que procuram em Espanha uma melhor qualidade de vida, desde logo uma vida livre, mas também as famílias e os esquemas cleptocráticos da ditadura venezuelana também refugiaram capitais e adquiriram imóveis em Espanha. Portanto, é um tema sensível. Por outro lado, Zapatero, nesta figura que ele decidiu assumir, uma espécie de embaixador oficioso do regime venezuelano, teve posições muito dúbias e criticáveis, pelo menos do ponto de vista ético, em relação aos presos políticos na Venezuela. Zapatero tentou sempre defender a imagem e a atuação dos governos ou da presidência de Nicolás Maduro. E portanto, tudo isto faz com que o tema Venezuela seja de facto muito sensível em Espanha.
E agora acaba por tocar, naturalmente, o primeiro-ministro, por todas as ligações que o Diogo já foi explicando, ligações de mentoria quase de Zapatero a Pedro Sánchez, mas numa altura politicamente muito delicada para Sánchez, que a coisa que ele menos precisava, provavelmente nesta fase, era de mais um escândalo político.
Sim, embora eu creia que a primeira dificuldade é definir esse momento difícil quando é que começa, porque se calhar já tem três ou quatro anos.
É verdade.
Vamos pensar que Pedro Sánchez não tem maioria no Parlamento. Espanha é uma democracia parlamentar, portanto, o governo está muito dependente do Parlamento. A maioria que levou Pedro Sánchez ao poder só serviu para isso. Desde então, essa maioria, esses partidos não se conseguem pôr de acordo para nada. E o efeito prático disto são dois: Pedro Sánchez está obrigado a governar por decreto, porque não consegue levar nada ao Parlamento, e Espanha vai para três anos sem orçamento de Estado. E portanto, estamos a falar de um governo extraordinariamente frágil, porque carece de apoio parlamentar. Ao mesmo tempo, Espanha tem ido a eleições regionais e nós tivemos agora-
Ainda agora este fim de semana
Exatamente, a última foi este fim de semana, na Andaluzia. E não só o PSOE tem perdido todas as eleições, como em algumas dessas derrotas têm sido derrotas históricas que levaram o PSOE a mínimos sem precedentes. E portanto, Sánchez não tem apoio no Parlamento, mas também aparentemente não tem apoio social. A isto acresce que a mulher de Pedro Sánchez, o irmão de Pedro Sánchez, o braço direito de Pedro Sánchez no partido, o braço direito de Pedro Sánchez no governo, vários militantes do partido e agora Zapatero estão a braços com problemas sérios com a Justiça e, portanto, a forma se calhar mais benigna de olharmos para isto é que Pedro Sánchez é um homem com muito azar, porque desde a sua família ao seu partido, ao seu governo, todas as pessoas que foram importantes para Pedro Sánchez nos últimos 20 anos, todas estão a braços com problemas sérios na Justiça. E alegadamente Pedro Sánchez não sabia de nada e, portanto, se calhar a forma mais simpática de olhar para isto é que de facto Pedro Sánchez tem um azar tremendo, em que todas as pessoas que estão à sua volta aparentemente prevaricam e às vezes com gravidade, mas Pedro Sánchez não sabia de nada.
Ele é o último a saber, é o homem mais azarado da política espanhola, sem dúvida.
E do mundo, provavelmente.
Provavelmente. De qualquer forma, e agora só para terminarmos. Há pouco falávamos um bocadinho disto, que é de como há uma espécie de acusação de que a Justiça está a servir debates ou combates políticos. Isto tem sido o argumento, sobretudo à esquerda.
Esse é um argumento muito débil e é um argumento um bocadinho desesperado até. Se nós fizermos um esforço de memória e recuarmos 10 anos, não é preciso mais, veremos que à época era o Partido Popular de centro-direita que estava atolado em casos de corrupção e tráfico de influências. Importa recordar que na história da democracia espanholaSó há a tever um único partido constituído arguido, e esse partido é o Partido Popular de centro-direita. O PP teve há pouco mais de uma década, mais de 600 militantes constituídos arguidos por casos de corrupção, tráfico de influências e crimes conexos. Isso para dizer o seguinte: a justiça que neste momento está a investigar e a acusar gente do Partido Socialista é a mesmíssima justiça que há 10 anos investigou, acusou e condenou gente do centro-direita. E portanto, as acusações de lawfare, que é uma expressão que tem aparecido muito em Espanha, isto é, dizer que a justiça está ao serviço de interesses políticos. Bom, se assim é, é difícil descortinar quais são esses interesses, porque estamos a falar da mesma justiça que prendeu e condenou a penas de prisão efetiva até ex-ministros do Partido Popular e um ex-tesoureiro do Partido Popular e que, mais uma vez, insisto, constituiu o Partido Popular arguido. Portanto, essa acusação de que a justiça está ao serviço do político é muito débil e é, a meu ver, um sinal de desespero já. Como é esta acusação de que tudo surge por causa de queixas da extrema-direita. Não é verdade. De facto, há uma queixa da extrema-direita, como falámos há pouco, mas essa queixa é arquivada e o caso que nós estamos a ver hoje nasce de investigações em França e na Suíça a capitais venezuelanos. E, portanto, a queixa ou a suspeita de que a justiça não é séria não tem fundamento, mas é ao mesmo tempo muito perigosa, Pedro, porque nos últimos anos nós temos assistido de forma constante ao governo de Pedro Sánchez e ao Partido Socialista de Pedro Sánchez, sempre que aparece um caso judicial complicado, há ataques a juízes, ataques ao Ministério Público. Existe sempre um clima de suspeita dizendo que a justiça, em boa verdade, não é bem justiça, é na verdade mais um partido político. E, portanto, uma das estratégias de defesa, quer do governo espanhol, quer do Partido Socialista Espanhol, tem sido desacreditar o poder judicial. E isto, insisto, é algo muito constante ao longo dos últimos anos, o que significa um ataque ao Estado de Direito e à confiança que as pessoas têm no sistema judicial.
Nas instituições democráticas.
É, e portanto uma das coisas mais graves, mas essa é uma conversa muito mais ampla que está a acontecer em Espanha, é uma degradação absoluta do Estado de Direito, que está a acontecer em várias frentes. E uma das frentes é precisamente esta, é um ataque sistemático e permanente ao poder judicial, desacreditando o poder judicial aos olhos dos cidadãos. E de facto, uma das reações que nós temos tido em Espanha, até de alguns comentadores e até de parte da sociedade, é de que não se pode confiar na justiça. E essa é uma conclusão muito perigosa, extraordinariamente perigosa para o normal funcionamento de um Estado de Direito, mas infelizmente, em Espanha chegámos a um ponto em que o perigo é real.
Diogo, obrigado. Foi uma conversa muito esclarecedora.
Obrigado, Pedro. Foi um gosto.
Eu conversei com o investigador e politólogo Diogo Noivo sobre como os socialistas espanhóis estão novamente debaixo de fogo com um caso judicial centrado numa das principais referências do partido. Um caso, mais um, que deixa o PSOE nervoso. Ainda este fim de semana, na Andaluzia, os socialistas atingiram um resultado historicamente negativo. E estando o partido na mó de baixo, há quem pense no que pode acontecer ao PSOE no verão de 2027, quando Espanha for às urnas escolher um novo governo. Esta foi a história do dia, a sonoplastia do Pedro Oliveira, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.
observador




