O "soccer" é afinal inglês e a língua está mesmo a piorar?

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Começa agora mais um Português Suave na Rádio Observador. Eu sou o João Costa e Silva e conto sempre com o ninja da língua portuguesa, o mais ninja, Marco Neves.
Olá, tudo bem?
Tudo bem.
Cá estamos, agora aqui no estúdio. Nos últimos episódios tivemos alguns em que andava-
Tanto estamos cá como lá, tu és uma pessoa muito viajada.
No último episódio, por acaso, não foi por uma questão de viagem, mas não conseguia estar aqui no estúdio naquela hora.
Faz parte.
Agora cá estamos e estamos a falar da língua portuguesa, como sempre. Hoje vamos viajar, eu digo infelizmente, porque a notícia não foi boa, até à Venezuela. Depois vamos falar um pouco de futebol, como também é habitual por estes tempos, e vamos acabar com mitos, como é habitual, com um livro. O livro desta vez não tem diretamente a ver com a língua portuguesa, mas eu gostava muito de falar dele.
Ok, então vamos a isso. A língua nas notícias.
Tivemos aquele duplo terramoto, ou seja, um terramoto que teve uma espécie de réplica mais forte do que o próprio terramoto original na Venezuela. Todos sabemos o que aconteceu. Acho que ninguém está tão distraído que não tenha percebido que tenha havido este terramoto. Então gostava só aqui de referir duas informações, enfim, quase em honra daquele país que agora vai ter de se reconstruir. Uma delas é a questão da palavra terramoto, porque nós já aqui discutimos várias vezes quando tivemos pequenos tremores de terra, que às vezes se formam um pouco.
Até penso que foi na altura daquilo que aconteceu em Lisboa, no mês de agosto.
Que é um tremor de terra. Nós chamamos terramoto, mas em geral terramoto deveria estar reservado para um tremor de terra tão forte como aquele que aconteceu na Venezuela. Nós cá, também por causa do pânico histórico de poder vir a haver um terramoto.
Essa ameaça está sempre a pairar.
Vamos sempre chamando de terramoto aos tremores de terra. Na Venezuela foi mesmo um terramoto. Aqui, no que toca à língua portuguesa, no fundo, neste contexto, quase que parece uma coisa fútil, mas não é. Aliás, ainda há poucos episódios falei daquele senhor, Manuel José de Paiva, que depois do terramoto de Lisboa andava pela cidade a registar as expressões que as pessoas usavam. A verdade é que a língua faz parte da vida e também das tragédias. Nós em Portugal temos terramoto com A, terramoto. Ali, mais perto da Venezuela, no Brasil, eles usam terremoto, que é a forma original, também porque usam menos a palavra. A verdade é que no Brasil há muito poucos terramotos, o que é curioso. O Brasil é um país tremendo, enorme.
E é estável nesse sentido.
E é muito estável nesse sentido, felizmente. É curioso como temos zonas da Terra onde isto raramente acontece. Quanto a Venezuela, nós também já falámos disto aqui, já não sei quantos, já há uns meses. O nome Venezuela vem de uma cidade, de Veneza. Venezuela era a pequena Veneza, precisamente por causa da forma como os espanhóis, quando chegaram, viram ali numa determinada zona umas casas construídas em cima da água que lhes lembraram Veneza. E fica aqui o nosso abraço pra Venezuela e sabemos que está lá muito povo.
Sim, e há muitos portugueses que têm familiares na Venezuela.
Alguns portugueses estão lá.
E é uma altura difícil.
Exato. Pronto, então vamos passar pro mapa da língua.
E vamos até onde?
Vamos até à América do Norte. Vamos falar de soccer e futebol. A velha discussão entre americanos e ingleses sobre qual é o nome do desporto. Os ingleses chamam-lhe futebol, que é o nome que deu origem ao nosso próprio nome para futebol. Os americanos chamam soccer. E há esta ideia de que o soccer será um americanismo, que foram os americanos que inventaram isto. Mas não, o soccer, na verdade, é uma palavra inglesa, que foi criada em Inglaterra, em Oxford, no século XIX.
Há uma que seja mais antiga do que outra?
Não. A questão é futebol, para dizer à inglesa, um bocadinho mais à inglesa, é uma expressão muito genérica pra vários tipos de desporto jogados com bola. O que acontece? No século XIX foi criado um conjunto de regras que foi chamado de Football Association. Football que ainda hoje existe, é a Associação de Futebol da Inglaterra. Este Football Association passou a ser o nome do desporto também. Que tipo de futebol é que era? Temos o associação, mas também temos o rugby, temos o não sei quantos. Ou seja, todos estes eram diferentes tipos de futebol e o association era este futebol que nós hoje temos e que é tão importante em Portugal. Olha, os ingleses começaram a chamar futebol logo desde o início, mas também começaram a chamar de forma um pouco, como é que eu vou dizer, quase como uma espécie de calão, ou seja, uma palavra mais informal, começaram a chamar algo como a soccer, que era uma espécie de association, mas reduzida, e depois acabou por ficar soccer, e os ingleses continuaram a usar esta palavra até aos anos 80, de forma muito menos frequente do que futebol, mas aparece ainda em jornais dos anos 80, do século XX, soccer como nome do futebol. Os ingleses acabaram por perder esta palavra. Perdeu-se de tal maneira que eles agora já nem se lembram que a usavam.
Mas consegue-se perceber a razão?
Já li alguns trabalhos sobre isto a dizer que é uma questão social, que soccer era mais popular, futebol seria mais das classes altas e depois o termo usado pelas classes altas começou a se espalhar e o soccer começou a ser visto como algo que não deveria ser dito. Mas ficou preservado nos Estados Unidos, no Canadá, na Irlanda e na Austrália. Os irlandeses ainda dizem soccer também. Ou seja, são tudo países onde há outros futebols, digamos assim, onde há outros desportos. O soccer é uma forma de distinguir bem este futebol dos outros, que eles também têm. Na Inglaterra não há necessidade, eles só têm aquele, tal como nós também. Quer dizer, não é que não tenhamos os outros, mas são muito menos importantes, muito menos falados. Só para dizer que temos aqui um caso de falso americanismo. É hoje um americanismo só porque é mais usado nos Estados Unidos, mas não foi criado nos Estados Unidos. Também existe isto em português. Eu queria só dar um exemplo de uma palavra que é também um falso brasileirismo, que é açougue. Açougue, que eles usam para talho. Os brasileiros usam açougue para se referirem aos talhos. Não é uma palavra criada no Brasil. A palavra já vinha de cá, só que depois cá começou a perder, começou a ser muito menos usada, já não é usada para nos referirmos ao talho, mas no Brasil manteve-se. E há mais uns quantos casos destes falsos.
Temos de trazer esses casos um dia.
Eu vou trazer uma lista maior. E agora vamos para os mitos. Hoje lembrei-me de falar aqui de dois mitos mais gerais, não propriamente sobre a origem de umas palavras, de um palavrão.
Que pena.
Eu acho que já tinha dito isto aqui. Eu acho muito curioso. Sabes aquele mito da origem do palavrão acabado em "alho"? Já falámos aqui, que não é o cesto de agave, não é o mastro. Ou seja, a origem não é essa. Não quer dizer que não haja um marinheiro que não tenha chamado.
Claro.
Mas isso é outra questão.
Mas indo aos factos, não é essa a origem.
Não é a origem. E há provas concretas documentais de que, ainda antes da época das navegações, já usávamos bastante aquele palavrão e não tinha nada a ver com cestos. Mas o que eu ia dizer é que esse parece ser o mito que ao ser desmontado, mais irrita as pessoas. Eu recebo muitas pessoas irritadas porque não é verdade aquele mito e quase que me chamam desmancha-prazeres. Eu: "Isto não é uma coisa tão interessante." No sentido da origem do palavrão.
Mas que é uma expressão tão curiosa que as pessoas ficam um bocadinho tristes.
Não, porque acham que a história é tão bonita.
"Bonita", entre aspas.
Entre aspas, sim. Não é uma palavra muito adequada para o contexto, mas o que eu digo muitas vezes é que as histórias falsas tendem a ser mais interessantes, precisamente porque são falsas e podem ser esculpidas para serem interessantes. As histórias verdadeiras, às vezes, são mais difíceis.
Mais aborrecidas.
Nem sempre.
Depende da perspectiva.
O problema é que nem sempre sabemos tudo. Há partes que não estão ainda bem esclarecidas e as pessoas ficam irritadas porque querem saber tudo. Quando é uma história falsa, se eu não sei, eu invento. Está tudo lá esclarecidíssimo.
Quem conta um conto acrescenta um ponto.
Exatamente. E quem inventa um conto até acrescenta mais não sei quantos pontos. Digamos que as histórias verdadeiras estão numa competição desleal com as histórias falsas, mas muitas vezes são muito interessantes também. Mas não é sobre nenhuma dessas histórias que eu hoje venho aqui falar. Queria falar de dois mitos mais gerais. Primeiro, uma coisa que se ouve muitas vezes: a ideia de que houve ali uma década, não consigo bem definir quando, nem ninguém consegue definir bem quando, em que os portugueses falavam muito bem português e o português era muito bem trabalhado na oralidade em todo o país.
Isso é um mito.
É um mito, claramente, porque nunca houve uma época em que os portugueses todos falassem o português padrão, que é normalmente o que está na cabeça das pessoas que se queixam desta decadência, supostamente. O que eu vejo aqui muitas vezes é a comparação. Estas pessoas comparam a sua memória da utilização do português em situações muito particulares ou na sala de aula com aquele professor em particular numa escola.
Criam esse imaginário.
No centro de Lisboa, se calhar, ou o que for, e depois comparam com o português usado por todas as pessoas hoje à sua volta. As pessoas, em qualquer década que nós encontremos no passado, que viviam nessa época, muitas delas também tinham esta sensação de que tinha havido uma década, ainda não tão remota, em que as pessoas falavam bem e agora olham à volta, vão pela rua e ouvem coisas de que não gostam, provavelmente não estão habituadas à variação. Esta sensação é uma sensação de sempre. Mas acabou por ficar mais forte a partir do momento, nos últimos 200, 300 anos, em que se criou uma ideia de uma língua padrão que tem de ser ensinada e que é uma ideia muito útil, pedagógicamente, como já falámos aqui muitas vezes, mas que depois leva a esta sensação de decadência, que é uma espécie de falácia. Ou seja, nós olhamos para o passado, o passado está selecionado, só nos lembramos de alguns aspetos e depois no presente temos tudo e acabamos por ficar convencidos de que as pessoas falam mal. Mas curiosamente, eu às vezes como brincadeira digo: a década em que as pessoas falavam bem é sempre uma década do início da vida da pessoa que está a dizer isso. Ou então arrumam essa questão, por exemplo, na época do Eça de Queiroz ou do António Costa Branco. Mas então se essas pessoas aterrassem nessa época e ouvissem as pessoas à volta desses grandes escritores, ficariam horrorizadas. Se calhar, até com o próprio grande escritor.
Claro, acredito que sim.
Outro mito, ainda há poucos dias recebi uma mensagem sobre isto, uma pessoa que estava muito irritada com o facto de haver pessoas como eu, por exemplo, que às vezes dizem português de Portugal. Isso é uma redundância, claro que o português é de Portugal. A pessoa não está a perceber bem o que nós estamos aqui a dizer quando falamos português de Portugal. O português de Portugal é uma expressão usada quando nós queremos falar das particularidades da língua em Portugal em comparação com os outros países. Quando estamos a falar da língua em geral, claro que não vamos dizer português de Portugal. Agora, se eu quero falar da forma como os portugueses falam distintamente dos angolanos, ou dos brasileiros, ou dos cabo-verdianos, posso falar de português de Portugal. Se eu quero falar da maneira como se fala no norte de Portugal, vou falar do português do norte de Portugal, do português de Lisboa, do português da minha rua. Portanto, são diferentes aproximações ao território onde o português é falado, mas as pessoas ficam muito irritadas porque acham que não se deve dizer português de Portugal, porque o português obviamente que é de Portugal, mas não estão a perceber. Nós também podemos falar de francês de França, ou do francês do norte da França, ou do inglês de Inglaterra.
É o que dá ter uma língua muito viajada por aí.
É verdade.
E nós aqui no "Português Suave" muitas vezes sentimos essa necessidade, lá está, porque falamos da língua em todas as suas variantes.
Portanto, eu até podia estar a falar disso no mapa da língua. Só para vos dizer que depois há uns outros termos técnicos de que também já falámos aqui, que são o português brasileiro e o português europeu, que são os nomes dos padrões, ou seja, são os padrões que são ensinados na escola e para já são esses os dois únicos nomes usados, mas isso é outra coisa, não está no mesmo nível de referir português de Portugal, português de Caminha, português do Algarve, português de qualquer território definido como nós quisermos para falar dessas características.
Muito bem, vamos para os livros? Vamos.
Eu andava a passear lá em minha casa, onde tenho alguns quantos livros.
Viste o cesto das molas?
Vi o cesto das molas, exatamente. Lá estava, em cima de livros. Um cesto que às vezes aparece por aí.
Só para explicar aos nossos ouvintes é que o Marco Neves uma vez fez um vídeo para o seu Instagram a explicar que muitas vezes está a fazer o seu programa para a RTP, tem uma estante enorme com livros atrás dele e por vezes aparece lá um cestinho com molas.
E as pessoas se calhar ficam a olhar para aquilo e pensam: " nunca ninguém me ia reparar."
Eu acho que agora todas as pessoas que veem o teu programa, que são teus fãs, olham para o canto esquerdo do ecrã para ver se está lá o cesto das molas. É tipo o Ollie.
É um cesto das molas que gosta de aparecer. Então estava a passear por essa zona, por ali, encontrei um livro que tinha lido já há muitos anos e pensei: "eu quero falar deste livro." Não tem diretamente a ver com a língua portuguesa, mas tem por acaso ali um pormenor de língua que é muito engraçado. Este livro é um livro chamado "O Escafandro e a Borboleta", de Jean-Dominique Bauby, um francês que teve um AVC aos 43 anos, isto nos anos 90, e ficou sem conseguir mexer nada. A única coisa que ele conseguia mexer do corpo era a pálpebra esquerda. Portanto, ele não conseguia falar, não conseguia nada, ficou completamente parado. E isto não o impediu, curiosamente, de escrever um livro. Essa é a parte mais interessante desta história, que obviamente é uma história triste, mas ao mesmo tempo não é triste, porque o que ele fez foi arranjar um sistema em que alguém, eu já não me lembro quem era a pessoa em si, acho que era a sua companheira, dizia as letras e ele pestanejava no momento em que queria aquela letra. Ou seja, ele estava a escrever o capítulo na sua cabeça e depois de escrever o capítulo, de burilar o capítulo dentro da sua cabeça, começava este processo. A ordem das letras não é na ordem alfabética, é da ordem das letras mais frequentes em francês, portanto a primeira letra é o E, para que seja mais rápido. O E vai aparecer mais vezes, portanto ele pestaneja logo no E. Mas assim conseguiu escrever este livro. Eu ouvi falar a primeira vez desta história numa crônica do Ferreira Fernandes na Visão nos anos 90, na papelaria do meu avô, lembro-me bem. Os livros têm esta coisa, levam-nos a recordar momentos particulares. Lembro-me de ficar maravilhado a ler este livro. A borboleta é no fundamento dele e o escafandro o corpo em que estava presa essa borboleta. E ele escreveu este livro muito bem escrito, muito bonito, muito bem traduzido. Eu não estive a comparar com o original, mas eu lembro-me de ler este livro e gostar muito da forma como estava escrito em português. E por isso o livro já é difícil se calhar de encontrar, não sei, mas fica aqui a sugestão se alguém o conseguir encontrar.
"O Escafandro e a Borboleta"
"O Escafandro e a Borboleta" de Jean-Dominique Bauby. Ele depois morreu dois dias depois de ter publicado o livro, mas ficou esta parte da vida dele no livro.
Esta história impressionante.
Nunca mais me esqueci de ler isto. Eu lembro-me de ler a crônica e ter ficado tão obcecado com a história que eu não descansei enquanto não consegui encontrar o livro, enquanto não o comprei, enquanto não o li.
Belíssima sugestão, Marco Neves. Nós ficamos por aqui, mas entretanto, já sabe, se tiver dúvidas, pode enviar-nos através do nosso e-mail.
E através do nosso número de telefone, que o Marco Neves um dia, eu tenho esperança.
Nove, agora já nem sei o segundo. Nove o quê?
Um.
Nove um. Isto está a ficar piada.
91 002 41 85. Envie-nos mensagens de voz. Já sabe que eu e o Marco queremos muito ouvir as suas discussões. Se possível, não em direto, mas no momento em que estão a discutir uma expressão, uma palavra, enviar-nos para o nosso WhatsApp. Marco, um grande abraço e bom resto de fim de semana.
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