Japão: Copa do Mundo de Cinema

Por Tem Que Ver*
Desde sua estreia em Copas do Mundo da FIFA em 1998, na França, o Japão tem sido presença constante no torneio. Neste ano, chega à sua oitava participação, e desta vez com um marco especial: foi a primeira seleção a conquistar a vaga jogando em campo, pelas Eliminatórias da AFC, a federação asiática de futebol, superando concorrentes como Arábia Saudita, Austrália, Bahrein, China e Indonésia - lembremos que Canadá, EUA e México, por serem os países-sede, se classificaram automaticamente.
Os Samurais Azuis (Samurai Burū, em japonês) estão bastante confiantes para este ano, uma vez que a seleção, treinada por Hajime Moriyasu desde 2018, conquistou significativos resultados em amistosos preparatórios para a Copa 2026, como vitórias sobre a Inglaterra (em Wembley) e o Brasil. Ex-jogador, Moriyasu é reconhecido por sua versatilidade tática e pela habilidade na gestão do elenco, fatores decisivos para transformar o Japão numa das forças emergentes do futebol mundial. O objetivo do treinador é claro: fazer os japoneses avançarem além das oitavas-de-final, a melhor classificação nipônica obtida em quatro edições (2002, 2010, 2018 e 2022).
Se nos gramados o Japão ainda está se consolidando como potência futebolística, nas telas o país é tido, indubitavelmente, como um dos melhores, maiores, mais antigos e mais influentes produtores cinematográficos, graças ao talento ímpar de realizadores ímpares como Akira Kurosawa, Yasujiro Ozu, Kenji Mizoguchi, Hayao Miyazaki, Mikio Naruse, Masaki Kobayashi, Nagisa Ōshima, Ishirō Honda, Toshio Matsumoto, Hiroshi Teshigahara, Naomi Kawase, Satoshi Kon, Kiyoshi Kurosawa, Ryūsuke Hamaguchi, dentre tantos outros.
A introdução do cinema no Japão ocorreu em 1896 - no período Meiji, quando o país dava os primeiros passos em direção à modernização -, quando a primeira exibição de um filme acontece na cidade de Kobe, utilizando um cinetoscópio (aparelho inventado por Thomas Edison). O filme japonês mais antigo preservado é de 1899, intitulado Momijigari. Nas décadas iniciais de sua história, o cinema nipônico era uma arte voltada para as classes média e alta, devido aos preços elevados dos ingressos. Além disso, no período do cinema silencioso, era comum a figura dos katsudō benshi, pessoas que ficavam ao lado da tela e interpretavam os diálogos silenciosos, explicavam as cenas e traduziam a psicologia dos personagens para o público. A habilidade desses narradores muitas vezes atraía mais os espectadores do que o filme em si. Com a chegada do cinema sonoro nos anos 1930, tais profissionais evidentemente foram deixando de ser importantes.
No que diz respeito ao âmbito da produção cinematográfica, muitas produções contavam com o trabalho dos atores do tradicional teatro kabuki. Ainda nessa época, expressões como jidaigeki e chanbara passam a fazer parte do imaginário da sétima arte japonesa - a primeira designa um subgênero composto por obras que se passam antes do período Meiji (1868-1912), geralmente durante o período Edo e trazendo samurais, fazendeiros, artesãos e/ou comerciantes como personagens de destaque; por sua vez, a segunda é uma subcategoria do jidaigeki e refere-se a filmes focados em duelos de sabre ocorridos em narrativas com samurais e ronins (samurais sem mestre).
Antes da Segunda Guerra Mundial, o Japão era o segundo maior produtor cinematográfico do planeta, atrás apenas dos EUA. Após o conflito que devastou o país com duas bombas atômicas lançadas pelos estadunidenses, e ainda vivenciando os traumas decorrentes do mesmo, viu-se surgir no país os chamados filmes de kaiju (ou monstros), que até hoje possuem grande apelo junto ao público, como evidencia a franquia Godzilla, pertencente a Toho Studio. Outro momento histórico do cinema nacional foi a Nūberu Bāgu, surgido num contexto de grande agitação política, refletindo o choque entre os valores tradicionais da sociedade japonesa e as novas liberdades e mazelas trazidas pelo capitalismo em ascensão. O movimento, que consolida o cinema moderno no país, foi o equivalente à Nouvelle Vague francesa.
Na atualidade, além da continuidade da excelência cinematográfica japonesa nos gêneros mais tradicionais, o país se tornou uma potência global em animações, particularmente aquelas denominadas de animes. Destacam-se, inclusive no Ocidente, aquelas produzidas pelo Studio Ghibli.
Como representante do Japão na Copa do Mundo de Cinema, centenas de filmes poderiam ser trazidos. Mas optamos por uma obra centenária, lançada em 1926, verdadeira obra-prima: Uma Página de Loucura, do diretor Kinugasa Teinosuke. No filme, um terror psicológico experimental não sonoro, acompanhamos um marinheiro que se emprega como faxineiro em um manicômio para libertar sua esposa, que fora internada após uma tentativa de suicídio depois de ter afogado seu filho.
Uma Página de Loucura não possui intertítulos (as cartelas de textos) com diálogos ou explicações. A narrativa, portanto, é apresentada estritamente visual, recorrendo a imagens. Ao fazer isso, Teinosuke provou que o cinema japonês possuía uma gramática visual autônoma, capaz de gerar drama e subjetividade sem muletas literárias ou teatrais. Muitos historiadores e críticos eurocêntricos tentam rotular o filme como um mero derivado do Expressionismo Alemão, uma leitura bastante reducionista. Durante décadas, ele foi considerado permanentemente perdido - uma vítima comum dos bombardeios da Segunda Guerra Mundial e da negligência com películas de nitrato no Japão. Em 1970, o próprio diretor reencontrou o negativo original de 35mm guardado em um galpão de sua casa de campo, dentro de uma lata de arroz. Essa redescoberta reescreveu a história do cinema japonês, provando que o país, nos anos 1920, não produzia apenas melodramas históricos (jidaigeki) ou dramas contemporâneos rígidos, mas abrigava uma das vanguardas mais ferozes, viscerais e esteticamente evoluídas do mundo à época. De certo modo, dá para dizer que Uma Página de Loucura está para o Japão como Limite, de 1931, está para o Brasil.
*Texto originalmente publicado no portal Tem Que Ver Cinema
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