E se pudéssemos ver os tesouros da biblioteca da Ajuda?

Produzido no século XVII, por um único autor anónimo, o códice reúne pequenos excertos, “eventualmente de textos maiores, que se foram autonomizando ao longo do tempo e que podem ter sido transmitidos a partir de outras cópias de forma autónoma”. As fontes, quando citadas, são diversas — Homero, Eutrópio, Damião de Góis, João de Barros —, e os temas variados — história antiga e moderna, portuguesa e estrangeira, mitologia. Os títulos são bastante sugestivos e entre esses incluiu-se, por exemplo, “Costumes dos bárbaros do oriente”, “Vícios dos filhos de Roma que haviam de ser proibidos”, “Sepultura de um rei do Chipre”, “O que disse o rei do Malabar aos primeiros portugueses”, ou “A serpente do Egito”.
Em termos de encadernação, o 51-IX-22 é muito menos luxuoso do que o Cancioneiro da Ajuda e o Livro de Linhagens do Conde D. Pedro. “Tem uma encadernação mole, em pergaminho, sem fechos, sem nada. É mesmo muito simples. Era um livro de todos os dias”, apontou Elena Lombardo, acrescentando que, “ainda assim, é importante prestar atenção a estas encadenações, porque nos dizem como é que eram feitos os livros”. Também ao contrário dos outros dois manuscritos, o 51-IX-22 foi produzido em papel. Apesar de o uso do papel ser mais associado à imprensa, a verdade é que esta alternativa ao pergaminho começou a ser introduzida na Europa nos séculos XIII e XIV. A sua produção seguia um processo muito diferente do atual. “O papel era de origem vegetal, mas não era fabricado como estamos acostumados. A celulose não vinha diretamente das fibras da madeira, mas de panos, que eram postos de molho, batidos e transformados numa pasta”, explicou a investigadora do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa. A pasta era depois colocada dentro de um molde de madeira com fios metálicos, que podiam ser usados para criar símbolos — a chamada marca de água. O molde era depois espremido, para retirar toda a água da pasta de papel. Esse processo fazia com que as linhas metálicas e a marca de água deixassem uma impressão sobre o papel, apenas visível em contraluz. Atualmente, as marcas de água podem ser usadas pelos investigadores para identificar os diferentes produtores e o período de produção das folhas de papel.
O primeiro excerto do códice é precisamente o da “Jornada de África del rei Dom Sebastião”, um texto relativamente longo — o maior do manuscrito —, dividido em 55 capítulos, que fala sobre a campanha norte-africana de 1578, que culminou na Batalha de Alcácer Quibir e na esmagadora derrota do exército português. Contudo, o texto “tem relativamente pouco sobre a jornada de África” em si, uma vez que se foca, sobretudo, no que aconteceu depois. “Começa com os preparativos para a jornada, mas, além da descrição da batalha, relata todos os acontecimentos posteriores do ponto de vista dos portugueses e europeus que ficaram cativos.” Inclui também informações sobre o trabalho das ordens religiosas que se encarregaram do resgate dos cativos e uma descrição dos costumes e hábitos dos muçulmanos, o que o distingue de todos os outros textos sobre Alcácer Quibir. O excerto “foi escrito por alguém que também ficou cativo e decreve, não só o dia a dia dos cativos, mas também os costumes dos mouros, a relação entre eles, e toda uma série de informações que são muito importantes, porque dão a entender o que essa pessoa viveu”, especificou Elena Lombardo. Por outro lado, a descrição do papel das ordens religiosas e dos costumes locais torna-o numa “fonte interessante para a história religiosa e para a história dos costumes sociais da época”. “É claramente um texto diferente de todos os outros que são conhecidos” sobre a campanha militar, acrescentou a investigadora, embora não apresente qualquer novidade relativamente ao que se passou no norte de África em 1578.
Elena Lombardo, que o identificou em 2019, quando estava a acabar o doutoramento em Crítica Textual na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, acredita que a “Jornada de África del rei Dom Sebastião”, tal como aparece no 51-IX-22, não se trata de uma primeira versão do texto, mas de uma cópia de um relato escrito por alguém que esteve no norte de África na altura da campanha, mas a narrativa carece de um estudo mais aprofundado. A investigadora começou a editá-lo, mas o trabalho foi interrompido pela pandemia de Covid-19 e, desde então, ainda não teve oportunidade de lhe dar continuidade. Espera poder retomá-lo em breve e divulgar o texto pela primeira vez na íntegra.
O último manuscrito que foi mostrado aos mais de 30 curiosos que se reuniram na Biblioteca do Palácio da Ajuda no dia 11 de maio foi a cópia da Vida e Feitos Del Rey Dom João Segundo, a única manuscrita que se conhece da crónica de D. João II de Garcia Resende (1470-1536). Datável de meados do século XVI, a cópia em papel foi feita por “um tal” Álvaro de Couto de Vasconcelos, sobre o qual nada se sabe, além de ter dedicado vários anos da sua vida a copiar “as crónicas de todos os reis de Portugal até D. João II, ao final do século XV”, em volumes “com o mesmo tamanho, o mesmo tipo de letra, o mesmo layout”, dos quais apenas dois se encontram fora da Ajuda, no Arquivo da Torre do Tombo, explicou Filipe Alves Moreira. “O nome Couto de Vasconcelos denota nobreza, o que é curioso, porque não é um nome típico de copista”, destacou o investigador, acrescentando que também não é comum saber-se o nome do autor de uma cópia.
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