A Meta montou a tenda na Croisette e a Palma de Ouro dos influencers

O cinema, agora, também precisa de provar que esteve lá
Pode não ter nada a ver, mas tem tudo. Porque agora, na Croisette, já não basta ver um filme e escrever sobre ele, bem ou mal, dependendo da disposição e, claro, do filme. Agora também é preciso filmar-se a vê-lo, filmar-se a caminho dele, filmar-se a falar dele, filmar-se a fingir que se ficou destruído por ele e, se possível, filmar-se a sair da sala com aquele ar místico de quem acabou de descobrir uma obra-prima que vai mudar o mundo, as nossas mentes, a terapia semanal e ainda tentando apanhar em fundo uma boa luz de fim de tarde, da varanda do Palácio dos Festivais para a marina de Cannes ou para a Croisette. O Festival de Cannes 2026 começou, mas este ano trouxe uma novidade especialmente deliciosa e, ao mesmo tempo, paradoxal: a Meta — a empresa de Mark Zuckerberg, dona do Facebook, Messenger, WhatsApp e Instagram — instalou-se oficialmente no coração da festa, enquanto por aqui se discutem os paradigmas da Inteligência Artificial. Quando a apresentadora Eye Haïdara saudou ontem os convidados e espectadores na cerimónia de abertura, “em todos os lugares onde a Internet não foi cortada” e onde a Inteligência Artificial ainda não substituiu a realidade, não estava exatamente a fazer uma piada. Estava a lembrar-nos que, em 2026, até a realidade já pode ser virtual. E, a umas centenas de quilómetros dali, Ursula von der Leyen — acompanhando, de certo modo, a Austrália, que avançou primeiro nessa direção — surgia com ar de diretora de colégio interno suíço e um dossiê regulamentar na mão, anunciando que é preciso devolver a infância às crianças. De um lado, a empresa que transformou metade da humanidade em gestora voluntária da sua própria vaidade; do outro, Bruxelas a tentar meter o algoritmo de castigo, sem telemóvel, sem Wi-Fi e talvez até sem sobremesa ou sem gelado depois do jantar, caso não se porte bem. Não nos esqueçamos: a senhora é mãe de sete filhos.
A Meta House, os óculos e a realidade com acreditação
É verdade: a Meta chegou a Cannes, veja-se bem, como Parceira Oficial do Festival, numa parceria estratégica plurianual, abrindo mesmo uma Meta House no Hotel Majestic — que fica quase em frente à passadeira vermelha do Grande Auditório Lumière, no Palácio dos Festivais — com experiências ligadas aos óculos Ray-Ban Meta, criadores internacionais, ambientes imersivos, Inteligência Artificial, traduções automáticas, Reels, Threads e todo o arsenal moderno que permite a uma pessoa estar no cinema sem, tecnicamente, estar apenas no cinema. Não esqueçamos também que “Lúcido”, do artista português multidisciplinar Vier, que trabalha nas áreas da animação, pintura e meios imersivos, é uma das nove experiências inéditas, provenientes de oito países, na corrida pelo prémio de Melhor Obra Imersiva, na terceira edição desta nova secção competitiva. Isto para dizer que o Festival de Cannes, que durante décadas ensinou o mundo a olhar através de uma lente cinéfila, parece ter decidido — ou, pelo menos, estar também convencido — que essa lente agora pode estar presa à cara, ligada ao Instagram e ser suficientemente elegante para ninguém perceber se estamos a contemplar a glória do cinema ou a recolher dados para a apresentação de um produto. Antigamente, para se entrar no centro simbólico da Croisette, era preciso fazer um filme, descobrir um novo cineasta, escrever uma crítica feroz, comprar um smoking à última hora ou, pelo menos, no caso da crítica tradicional, saber pronunciar Bazin sem parecer que estamos a pedir um prato regional. Agora convém ter a bateria do telemóvel bem carregada, muitos seguidores, um bom enquadramento e a capacidade de dizer pelo menos umas cinco vezes “isto é absolutamente icónico” com a gravidade de quem acabou de assistir à ressurreição do neorrealismo italiano em formato vertical.
A nova aristocracia da passadeira vermelha
É aqui que entram os influenciadores, essa nova aristocracia do festival. Não lhes chamemos apenas influencers, que a palavra já parece uma irritação cutânea; chamemos-lhes antes cronistas de bolso, cineclubes ambulantes, sacerdotes do conteúdo, pequenos deuses do backstage, gente que aprendeu aquilo que muitos jornais e media tradicionais parecem ter esquecido: o entusiasmo transformou-se também numa forma de mediação cultural. Durante anos, a crítica olhou para eles como quem vê adolescentes a entrar na Cinemateca com copos de bubble tea, horrorizada, desconfiada e com vontade de chamar a segurança para perguntar o que é que aquela gente está aqui a fazer. O problema é que esses adolescentes cresceram, acumularam seguidores, aprenderam a falar com comunidades reais e perceberam que, enquanto o crítico escreve para quem ainda lê, o influenciador fala para quem está no metro, na cama, na fila do supermercado, na sanita ou a fingir que trabalha. É menos nobre? Talvez. É mais eficaz? Muitas vezes e, infelizmente, sim. E a indústria de cinema — porque, apesar de tudo, é disso que aqui estamos a falar, da indústria mundial do cinema — pode desprezar quase tudo: a crítica, a moral, a memória, a coerência e até o bom gosto. Mas não despreza a eficácia.
Os distribuidores, exibidores e vendedores internacionais de filmes já não querem apenas boas críticas ou entrevistas com as estrelas. Querem ativação, engagement, alcance, conversão, comunidade, conteúdo nativo e outras palavras que fazem qualquer velho jornalista desejar regressar ao tempo simples em que o maior drama profissional era ter de cortar 600 caracteres a uma crítica ou a uma entrevista e discutir com o editor ou com o paginador. Antes negociava-se uma capa, uma conversa exclusiva, uma fotografia inédita, um almoço ou uma entrevista one on one com um realizador ou com uma estrela. Agora negocia-se uma experiência. O influenciador não vai apenas ver o filme: é recebido, alimentado, mimado, fotografado, instalado, legendado, encaixado numa narrativa de pertença e, se o orçamento permitir, autorizado até a sentir que faz parte do centro secreto do cinema. Cannes sempre funcionou assim, claro. A diferença é que antes a vaidade usava smoking e falava baixo; agora vem geralmente com roupa ou óculos berrantes, hashtag, ring light mental e uma naturalidade estudada ao milímetro.
A passadeira vermelha tornou-se, assim, também um estúdio vertical de criação de momentos virais. Cada degrau do Palais é uma oportunidade de conteúdo. Cada vestido é um post. Cada lágrima é um clip. Cada aplauso é uma métrica. Cada bocejo pode ser transformado numa story sobre a intensidade emocional da experiência, mesmo que o seu autor tenha adormecido durante a segunda parte do filme ou só tenha estado realmente acordado quando a equipa entrou na sala. Cannes, que sempre foi uma máquina de imagens, assiste agora à democratização narcísica dessa máquina, transformada em fábrica permanente de conteúdos. Antes, só as estrelas eram fotografadas como se tivessem acabado de inventar a luz. Agora, qualquer criatura com 300 mil seguidores pode ocupar o mesmo espaço simbólico, mesmo que a sua relação com o filme seja tão profunda como a de um copo de champanhe com a história da vinha.
Entre o entusiasmo verdadeiro e a publicidade com boa maquilhagem
Convém, no entanto, não cair na caricatura fácil, essa tentação de quem parece que já perdeu uma guerra cultural e ainda está a discutir o uniforme do inimigo. Há também jovens influenciadores de cinema que sabem muito mais de cinema do que muitos jornalistas culturais que vão aparecendo por aí, vindos não se sabe de onde. Há tiktokers de 22 anos capazes de defender Leos Carax com mais paixão do que certos críticos defendem a própria profissão. Há jovens comunidades que levam público a filmes difíceis, frágeis, minoritários, esquecidos pelos circuitos tradicionais. Há filmes que encontram espectadores porque alguém, numa rede social, falou deles com entusiasmo verdadeiro. A fronteira não está entre papel e ecrã, nem entre crítica e vídeo. Está entre pensamento e ruído. Entre mediação e publicidade. Entre amor pelo cinema e amor por se filmar perto do cinema.
A questão, claro, é a independência. Um crítico de cinema pode ser vaidoso, injusto, preguiçoso, bêbedo de importância ou simplesmente errado. E Deus sabe que a história da crítica está cheia de todos esses pecados, muitas vezes acumulados na mesma pessoa antes do almoço, os chamados bolas pretas que não gostam de nada. Mas, em princípio, não é pago pelo distribuidor para gostar de um filme. O influenciador, muitas vezes, é pago para criar ambiente, gerar desejo, acender a fogueira, lançar os foguetes e ainda ir apanhar as canas. Mesmo quando assinala a parceria comercial, a suspeita fica sentada na sala, de perna cruzada, a comer pipocas: até onde vai a opinião e onde começa a campanha promocional? Onde acaba a recomendação e começa o anúncio com boa maquilhagem? A crítica dizia: pensem neste filme. A influência diz: venham comigo ver este filme. Uma é ensaio. A outra é convocatória. Uma escreve depois da sessão. A outra começa antes mesmo de a luz da sala se apagar.
E é aqui que a entrada — ou melhor, a presença constante — da Meta no Festival de Cannes se torna mais do que uma mera manobra de marketing. A Meta não está aqui apenas para vender óculos ou organizar eventos simpáticos com criadores sorridentes. Está a disputar o próprio ponto de vista. Quem vê? Quem mostra? Quem traduz? Quem distribui? Quem decide o que se torna visível? Durante décadas, essa função pertenceu aos festivais, aos críticos, aos jornais, aos programadores, aos distribuidores e às estrelas. Agora pertence também às plataformas, essas grandes máquinas contemporâneas que transformam qualquer acontecimento cultural numa corrente global de imagens, reações, fragmentos, micro-celebridades, publicidade disfarçada e entusiasmo genuíno embrulhado no mesmo pacote. Cannes dá prestígio, é verdade. A Meta dá escala. Um entrega a bênção. A outra entrega o mundo, mas com as notificações sempre ativadas.
Bruxelas quer meter o algoritmo de castigo
Por outro lado, Ursula von der Leyen observa a festa com preocupação maternal, europeia e regulamentar. A Presidente da Comissão Europeia quer proteger os menores das redes sociais, da ansiedade, do sono perdido, do cyberbullying, dos mecanismos aditivos, da rolagem infinita, dos algoritmos que conhecem melhor as fragilidades humanas do que muitos padres, psicólogos e programadores de cinema juntos. A intenção é nobre, evidentemente. Quem pode ser contra devolver a infância às crianças? Só um algoritmo particularmente mal-educado ou um director de marketing em jejum. O problema é que, na União Europeia, cada boa intenção costuma chegar acompanhada de um regulamento com 600 páginas, três comissões, sete consultas públicas, uma aplicação de verificação etária e aquela sensação muito europeia de que a liberdade deve existir, sim senhor, mas com formulário preenchido em triplicado.
O paradoxo é saboroso. Bruxelas desconfia da Meta, mas comunica no Instagram. Teme o TikTok, mas sabe que uma parte da juventude já não distingue uma notícia de um vídeo com música acelerada e letras em maiúsculas. Critica o X, mas reage ao X. Quer regular os espaços onde perdeu autoridade simbólica. Quer proteger os menores, sim, mas também quer recuperar a posição de adulto na sala. Só que a sala já não existe. Há milhões de quartos, ecrãs, grupos, feeds, canais, servidores, mensagens privadas e adolescentes capazes de contornar qualquer proibição antes de os pais descobrirem onde se muda a palavra-passe do router. O algoritmo corre. O regulador escreve. O jovem muda de aplicação. A Comissão anuncia uma consulta pública. A Meta lança novos óculos. Cannes abre a passadeira vermelha à Meta. E nós, idiotas felizes, continuamos a ver.
Cannes já era uma rede social antes das redes sociais
No fundo, Cannes sempre foi uma máquina de vício. Apenas tinha melhor guarda-roupa e usava um verniz mais fino. A rolagem infinita já existia antes das redes: era a fila infinita para entrar no Palais, a lista infinita de festas carregadas de penetras, a conversa infinita sobre filmes que ainda ninguém viu, o desfile infinito de egos, agentes, publicistas, jornalistas, distribuidores, fotógrafos, seguranças e atores que fingem não reparar nos fotógrafos que fingem não estar desesperados por fotografá-los. O que a Meta faz é apenas assumir a metáfora e pôr-lhe Wi-Fi, IA e uma armação Ray-Ban, passe a publicidade. Cannes já era uma rede social antes das redes sociais: tinha perfis, hierarquias, exclusões, vaidades, rumores, likes analógicos, cancelamentos discretos e stories que acabavam sempre demasiado tarde num bar demasiado caro ou, em último recurso, já de madrugada, no famoso e decadente bar Petit Majestic.
A ironia final é que o festival continua a proibir selfies na passadeira vermelha, essa pequena resistência feudal contra o colapso total da pose. Ou seja: o Festival de Cannes aceita a empresa que vive da partilha instantânea como sua parceira, mas continua a dizer aos convidados que não podem parar na escadaria para esticar o braço e fazer biquinho, para a selfie. É maravilhoso. É absurdo. É puro Festival de Cannes. O festival quer o futuro, mas desde que o futuro entre bem vestido, não atrase a subida da escadaria e não estrague a solenidade fotográfica. Quer os criadores, mas sem que a coisa pareça demasiado um parque temático. Quer a Meta, mas ainda sonha com a eternidade em 35mm. Quer o mundo no telemóvel, mas com o telemóvel no bolso quando passa a estrela certa.
Talvez o verdadeiro filme do Festival de Cannes 2026 não esteja na Competição Oficial. Talvez esteja neste plano geral: a Palma de Ouro de um lado, os Ray-Ban Meta do outro, Ursula von der Leyen ao fundo com um regulamento na mão e, no centro, nós todos — críticos, criadores, espectadores, adolescentes, pais assustados, marcas felizes e jornalistas melancólicos — a fingir que ainda mandamos no nosso olhar. O cinema tenta sobreviver transformado em conteúdo, experiência, dado, pose, post, story, tradução automática e reação em tempo real. Talvez isso seja trágico. Talvez seja apenas ridículo. Talvez seja o mundo como ele é agora: uma sala escura onde todos entrámos para ver um filme, mas onde metade da plateia está mais preocupada em provar que esteve lá. E, quando as luzes se apagam, resta a pergunta essencial: os influenciadores ficam para ver o filme até ao fim? Alguns ficam, felizmente. Outros já estão lá fora a explicar-nos, em 38 segundos, que acabaram de viver um sonho. E nós com eles.
Visao




