Maria Grazia Calandrone e a busca pela mãe biológica

Maria Grazia Calandrone não sabe falar português, mas depois de um dia em Lisboa, está perto de se tornar uma especialista. Sentada nos escritórios da Penguin Random House, o grupo editorial responsável pela publicação em Portugal de um dos seus mais recentes livros, admite isso mesmo, com um sorriso. A conversa corre com leveza, com a ajuda de um intérprete, mas o tema é pesado: o seu abandono, apenas com oito meses, junto a uma das entradas da Villa Borghese, em Roma, e o suicídio da sua mãe biológica, Lucia Galante, no rio Tibre.
O suicídio de Lucia Galante, no verão de 1964, foi um assunto que encheu capas de jornais. E também o foi o abandono da sua filha, nascida fora do casamento arranjado pelos pais de Lucia com um homem violento e cruel. É por isso que o livro que Maria Grazia Calandrone escreveu sobre o que aconteceu, Escrito com sangue na pedra, tem como subtítulo: A minha mãe, um assunto dos jornais. Apesar disso, e de ter crescido sabendo o que tinha acontecido a Lucia, em conversa com o Observador, a premiada escritora italiana revelou que nunca tinha tentado saber mais, sobretudo por não querer ferir os sentimentos da mãe adotiva, Consolazione Calandrone, mulher de um antigo deputado e líder do Partido Comunista italiano, Giacomo Calandrone.
Até que, em 2021, durante a promoção do livro que escreveu sobre a mãe adotiva, Splendi come vita, foi contactada por algumas amigas da mãe biológica. O contacto foi o início de uma aventura, nem sempre fácil, em busca de Lucia, mas também de descoberta de um período marcado por preconceitos e dificuldades, que acabaram por ditar o fim trágico da mulher nascida em Palata, na região italiana de Molise, e do seu companheiro, Giuseppe Di Pietro, o pai biológico de Maria Grazia Calandrone.
Como é que surgiu este livro? Quando é que decidiu escrever sobre a sua mãe biológica? Nasceu exatamente como conto. Fui apresentar o livro anterior [Splendi come vita; sem edição em Portugal], que é sobre a minha mãe adotiva [Consolazione Calandrone], à televisão e contei por que é que tinha sido adotada. Então, algumas amigas da minha mãe [biológica] escreveram-me para o Messenger e disseram-me que queriam falar sobre ela. Não pude ignorar. Decidi ir, com a minha filha, ouvir o que tinham para me dizer e descobri uma pessoa que queria conhecer melhor.
Nessa altura, o que é que sabia sobre a sua mãe biológica? Sabia o que a minha mãe [adotiva] me tinha contado, que correspondia à verdade, e o que tinha lido nos jornais, que não correspondia à verdade, era falso. Sabia do suicídio, que, se calhar, tinha acontecido ao mesmo tempo que o do meu pai, e que se deveu a uma denúncia do marido [de Lucia], mas não conhecia as razões verdadeiras. Não sabia porque é que ela se tinha matado.
Porque é que nunca tinha tentado descobrir mais sobre a sua mãe biológica? Para não trair a minha mãe, porque — descobri isso depois — todos os filhos adotivos têm um pacto de fidelidade com os pais adotivos e, por causa disso, não quis procurar mais informação. Procurei saber mais quando a oportunidade surgir, quando não era possível continuar a ignorar o que tinha acontecido.
Muitos filhos adotivos têm curiosidade em conhecer as suas origens. Nunca teve essa vontade? Não. É verdade que alguns filhos adotivos têm essa vontade, mas a maior parte não o faz, para não ferir os pais adotivos. A maior parte dos pais adotivos têm medo de não serem suficientemente amados e todos os filhos adotivos, exceto em casos obviamente extremos, querem provar que isso não é verdade. Foi por isso que nunca manifestei esse desejo.
Teria partido nesta viagem de descoberta se a sua mãe ainda fosse viva? Não, nunca o teria feito. Na verdade, ela acompanhou-me numa viagem a Palata, organizada por uma professora do liceu, quando tinha dez anos. Mas, por iniciativa própria, nunca o teria feito.
Como é que foi regressar a Palata, a terra da sua mãe? Primeiro, descobri a pobreza dela. Visitei os lugares onde viveu. Tinham duas casas, uma na aldeia e outra no campo. A casa de campo era metade desta sala e dormiam lá quatro pessoas. Compreendi que muitas coisas que nos parecem absurdas, como os casamentos arranjados, tinham a ver com a pobreza. A prioridade não era a felicidade, os sentimentos, mas a estabilidade financeira e, por causa disso, os filhos eram sacrificados pelo bem da família. Mas também vi que a minha mãe sofreu, como muitas outras mulheres, uma grande injustiça contínua, porque, precisamente porque era vítima de violência doméstica, ninguém a ajudou. Todos faziam de conta que não acontecia nada. E os pais dela até a forçaram a permanecer num casamento em que ela não queria estar. Foi muito bonito encontrar pedaços dela durante essa viagem, mas também me senti muito revoltada por aquilo que descobri.
A sua mãe foi vítima dos preconceitos da época, sobretudo de preconceitos contra as mulheres, que eram apoiados pela Lei, que proibia o divórcio e que considerava o adultério um crime. Tinha noção disso quando iniciou a pesquisa? Não, não tinha. E sobretudo não sabia que a lei era diferente para homens e para mulheres. Por exemplo, a lei do concubinato: os homens tinham de viver com a outra pessoa para serem perseguidos por lei, mas às mulheres bastava a traição em si. Conhecia o período do pós-guerra, mas não conhecia essa realidade específica e, sobretudo, não sabia que ela tinha tido a coragem de deixar o marido numa altura em que não havia divórcio e que os pais a tinham ido buscar. Com o tempo, fui descobrindo uma figura que era admirável.
Investigar a história da sua mãe também lhe permitiu descobrir mais sobre aquele período? Sim. Uma das coisas que aprendi foi a questão da migração interna, do sul para o norte. Sabia, como é do conhecimento geral, que muitas pessoas tinham migrado do campo para as cidades industriais, mas não sabia como é que essas pessoas viviam nessas cidades. Se fossem bem-sucedidas e se conseguissem integrar, podiam ter uma vida decente, mas, caso contrário, viviam num inferno. Vi um documentário sobre os italianos do campo que viviam em carruagens de comboios, no meio da lama. Fui a Crescenzago [um bairro da cidade de Milão] com a minha filha, tal como descrevo no livro, e agora vivem lá os árabes, e esses árabes vivem como nós vivíamos naquela época, só que já nos esquecemos disso. E com este governo, ainda nos esquecemos mais.
Também descobriu o preconceito que existia em relação às pessoas que vinham do sul, como foi o caso da sua mãe. Absolutamente. Sabia muitas coisas, que são do conhecimento geral, mas uma coisa é saber, outra coisa é ver. E eu vi aquilo tudo. E ver implica fazer depois uma descrição detalhada das impressões e até dos cheiros dos locais que visitei. Não foi uma questão apenas de ter visto, mas também de ter estado muito próxima daquela realidade.
observador



