A Amazônia ancestral: projeto revela marcas da presença humana milenar na floresta

Por séculos, a humanidade viu a Floresta Amazônica como um imenso vazio verde, um paraíso intocado pela civilização. Hoje, feixes de laser disparados do céu estão reescrevendo essa história e revelando um passado invisível a olho nu. Bem antes da chegada dos europeus, no fim do século XV, estima-se que a região era densamente habitada por 8 a 10 milhões de pessoas. Para encontrar os vestígios dessa ocupação, o Projeto Amazônia Revelada utiliza a tecnologia LiDAR (Light Detection and Ranging), um sensor que emite pulsos de luz capazes de “remover” digitalmente a copa das árvores e expor a superfície do solo em 3D. O objetivo é mapear o legado cultural oculto na região para proteger o futuro do bioma.
Os resultados práticos dessa varredura de alta precisão são impressionantes. No Acre, os cientistas mapearam uma rede de 955 estradas pré-colombianas que somam cerca de 350 quilômetros de extensão, interligando rios, antigas aldeias e geoglifos (grandes figuras ou formas geométricas desenhadas e esculpidas diretamente no solo). Algumas dessas estruturas monumentais de terra, aliás, têm dimensões suficientes para abarcar o Estádio do Maracanã. Em Rondônia, na fronteira com a Bolívia, o laser encontrou resquícios de vilas coloniais sobrepostas a antigas ocupações indígenas, evidenciadas por valas e manchas de “terra preta”, um solo extremamente fértil gerado pela ação humana ao longo de gerações. “A Amazônia que nós conhecemos, a floresta, os solos da Amazônia foram em parte produzidos pelos povos indígenas ao longo dos milênios”, disse a VEJA o arqueólogo Eduardo Neves, pesquisador da USP e um dos coordenadores do projeto.
O grande diferencial da iniciativa é aliar a tecnologia de ponta aos saberes tradicionais. A ciência aplicada é essencialmente colaborativa: o mapeamento só ocorre após o consentimento e a aprovação prévia das comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas que habitam as regiões em estudo, localizadas em várias partes da Amazônia (leia o quadro). Em muitos casos, o conhecimento dessas populações é o que guia os pesquisadores aos locais mais carregados de história e os ajuda a interpretar os achados. No Alto Xingu, o povo Kuikuro inicialmente recusou os sobrevoos de avião para proteger a privacidade de seus locais sagrados. A solução foi capacitar os próprios indígenas, que hoje operam drones com a tecnologia de rastreamento para registrar seu território.
A primeira fase do Projeto Amazônia Revelada já foi concluída, com o sobrevoo de 1 600 quilômetros quadrados dentro da Amazônia Legal. Agora, os pesquisadores dão início à ambiciosa segunda fase, que pretende cobrir uma vasta extensão de 60 000 quilômetros quadrados na mesma região, uma área quarenta vezes maior. Para viabilizar essa expansão monumental, a questão financeira é um desafio constante. O projeto, que contou com um investimento inicial de 10 milhões de reais da National Geographic Society, busca agora novos aportes, incluindo doações da ONG Instituto Arapyaú e da fundação Google.org, vitais para garantir a continuidade das pesquisas e do processamento da imensa quantidade de dados gerados.
A arqueologia amazônica, portanto, deixou de ser apenas o estudo de um passado distante: tornou-se uma ferramenta para se aprender com ele e moldar o futuro. As evidências provam que a floresta sempre foi manejada de forma a mantê-la viva e em pé. Como a legislação brasileira proíbe a destruição de patrimônios arqueológicos, registrar essas estruturas confere uma camada de proteção legal extra aos territórios em questão. “Em qualquer lugar que a gente vá, no interior da Amazônia, nunca deixamos de achar um sítio arqueológico”, diz Neves. “A questão é saber o que fazer com eles.” Proteger a memória e as antigas civilizações que moldaram a Amazônia tornou-se um passo decisivo e inseparável da luta global para manter o maior bioma tropical do planeta a salvo da destruição.
Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001
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