“Hungry – 4 Toneladas de Raiva”: O Joaquim de Almeida e a vingança da Popota

Convém começar pelo essencial: este não é um filme de jacarés, crocodilos ou anacondas com contrato na Netflix. Não é um urso drogado, uma cobra radioativa, nem um javali ibérico irritado e de comportamento imprevisível. É um hipopótamo. Uma hipopótama, para sermos precisos, porque vamos respeitar as questões de género.
É um daqueles animais que a infância e o Jardim Zoológico de Lisboa sempre nos venderam como simpáticos, redondinhos, húmidos, vagamente cómicos, quase brinquedos de banheira com dentição de bulldozer. Pois bem: esta Popota — não a do Continente — cresceu, radicalizou-se e mudou-se para o bayou, onde certamente terá mais sucesso do que aqui, onde só aparece por alturas do Natal.
A premissa é de série B, assumidamente, gloriosamente, sem complexos. Um grupo de turistas num passeio pelos pântanos recebe, em vez do pacote habitual — jacarés, mosquitos, árvores torcidas e um guia sorridente a fazer piadas fracas com banjo ao fundo —, uma massa anfíbia de fúria e territorialidade. Uma hipopótama que não está ali para publicidade a iogurtes nem para posar ao lado de crianças em centros comerciais e supermercados. Está ali para destruir barcos, partir jacarés ao meio — e é bem-feito — e lembrar à humanidade que com a natureza não se brinca.
O grupo de turistas cumpre a função com eficácia. Há a amiga que quer esquecer os problemas, a que acha que um pântano é exatamente o que a vida precisa quando corre mal, famílias em modo luto turístico, e o Rodrigo, o guia charmoso mas apatetado que parece ter tirado o curso na Universidade Internacional do Péssimo Instinto. Rodrigo existe para provar que a natureza só precisa de um pequeno empurrão da estupidez humana para começar a carnificina. A arte vive de más decisões.
Rodado em Malta — esse paraíso, também fiscal, para rodagens económicas — e embrulhado em imagens de arquivo de Nova Orleães, o filme tem aquela geografia maravilhosa do cinema de baixo orçamento: estamos supostamente na Louisiana, mas sentimos que, se a câmara virasse ligeiramente para a esquerda, aparecia uma praia mediterrânica, ruínas históricas, restos do set de Gladiador 2, um produtor a fumar e alguém da equipa de rodagem, a perguntar se ainda sobraram pastéis de nata no catering. Mas isto dá-lhe charme. Às vezes fingir bem é mais honesto do que gastar 200 milhões para fingir mal.
Há aqui também uma pequena lição histórica. Em 1910, o congressista Robert F. Broussard apresentou a American Hippo Bill: importar hipopótamos para os pântanos do sul, onde comeriam o jacinto-de-água invasor e produziriam carne barata. O New York Times chamou-lhe “bacon do rio”. O plano nunca foi aprovado. Com o que sabemos agora sobre hipopótamos, percebe-se porquê.
Durante anos, a cultura popular vendeu-nos o hipopótamo como boneco rechonchudo, quase simpático. Mas o bicho real é outra conversa. É territorial, agressivo, rápido quando quer e perfeitamente capaz de virar embarcações como quem sacode migalhas da toalha. Enquanto andámos distraídos com tubarões e crocodilos, o verdadeiro vilão estava ali, gordo, silencioso, subestimado, a mastigar erva com ar de quem planeia um massacre.
E depois temos o grande Joaquim de Almeida. Esse património nacional exportado há décadas para Hollywood, onde tem feito de vilão, traficante, mafioso, latino genérico, sul-americano com passado e senhor que sabe sempre mais do que diz. Em Hungry – 4 Toneladas de Raiva, interpreta Walker, proprietário de uma empresa de turismo e espécie de Crocodile Dundee do Rio Trancão cruzado com Indiana Jones do Texas, mas com saudades de um bom bacalhau.
Joaquim não pisca o olho ao espectador, como quem diz “eu sei que isto é uma parvoíce, mas pronto”. Nada disso. Entra no filme com a dignidade de quem está em Apocalypse Now, só que em vez do Vietname temos um tanque de água em Malta e, em vez do coronel Kurtz, temos uma hipopótama com problemas de gestão emocional. Há nele qualquer coisa de herói antigo, mas também de tio português que já não tem paciência para turistas, empregados incompetentes e mamíferos com excesso de autoconfiança. A personagem foi provavelmente escrita como “caçador experiente”. Joaquim transforma-a em “senhor que já enfrentou muitos valentes — produtores americanos e portugueses incluídos — e portanto um hipopótamo não o impressiona assim tanto”.
Hungry – 4 Toneladas de Raiva não reinventa o cinema de género. Nem quer. A estrutura está lá: água, ameaça invisível, grupo em perigo, monstro que demora a aparecer. Mas não precisa de vírus militar, maldição indígena ou meteorito no pântano. Basta um hipopótamo fora de sítio e turistas no sítio errado. O terror, às vezes, é só logística.
Numa altura em que tanto cinema se afunda em universos expandidos, reboots e personagens que já morreram três vezes mas regressam porque a propriedade intelectual não conhece a vergonha, Hungry – 4 Toneladas de Raiva aparece com honestidade quase comovente: é um filme sobre um hipopótamo assassino. Não promete mais. Não finge ser tratado filosófico. Tem água turva, pânico, dentes e Joaquim de Almeida. Às vezes basta.
A verdadeira vingança da Popota é contra nós, que passámos anos a transformá-la em mascote fofinha e brinquedo de banheira. O hipopótamo não é giro. É um submarino com mau feitio. Um vegetariano que mata por princípio e por prazer.
E Joaquim de Almeida, com aquele ar de quem já viu de tudo e ainda assim não estava preparado para isto, é o nosso guia perfeito nesta excursão pela estupidez humana e pela fúria animal. Quando o cinema português não lhe dá pântanos, Hollywood arranja-lhe hipopótamos.
Visao




