O jet lag do desejo / Sexo com Esther

Dizem que casais felizes fazem tudo ao mesmo tempo: comem juntos, dormem juntos, acordam juntos. Uma mentira inocente. A vida real é mais como um filme mal cronometrado: um sente desejos às sete da manhã, quando o sol mal começa a aquecer a janela, e o outro ativa o radar de desejos às onze da noite, quando a cama já está clamando por um sono profundo. É o eterno jet lag do desejo.
Isto não tem relógio suíço nem segue calendários compartilhados. Chega com a lógica caprichosa de um voo internacional: pousa em horários impossíveis, muda de fuso horário sem aviso e sempre força a improvisação. Enquanto um ainda negocia com o travesseiro, o outro já imagina pistas de pouso no térreo. E quando parece que o dia finalmente chegou, o desejo se acende em um horário diferente, como se cada corpo habitasse um aeroporto paralelo.
Essa dessincronia pode ser frustrante. Uma pessoa pensa que a outra a está rejeitando, a outra pensa que o desejo desapareceu. Nada poderia estar mais longe da verdade: estamos lidando com um simples jet lag erótico. O desejo, assim como os voos intercontinentais, não chega ao mesmo tempo para todos . E aqui reside o desafio: entender que não se trata de desligar relógios, mas de aprender a zerá-los.
O casal que consegue isso descobre que o intervalo tem seu charme. Porque os obriga a inventar. Surge a diplomacia da cabeceira: pactos não escritos, tratados secretos, concessões e remarcações. Hoje acordam cedo, amanhã ficam acordados até tarde, no dia seguinte inventam uma escala no meio do caminho. Ninguém ganha ou perde; em vez disso, ambos aprendem que é menos uma questão de pontualidade e mais de cumplicidade.
O engraçado é que às vezes a faísca surge no erro. Um beijo roubado ao meio-dia, uma mensagem de flerte enviada do trabalho, uma carícia inoportuna que acaba ajustando os relógios melhor do que qualquer despertador. O jet lag do desejo, então, deixa de ser um problema e se torna um estilo de viagem: menos planejado, mais aventureiro.
Porque, sejamos honestos, seria chato se chegasse sempre na mesma hora. Onde estaria a surpresa? Onde estaria a improvisação? Onde estaria o riso de descobrir que, mesmo que um esteja sonolento e o outro ansioso, você sempre consegue subir a escada técnica no beliche? A assimetria é, em última análise, o combustível da criatividade.
No fim das contas, o que importa não é que os desejos coincidam ao mesmo tempo, mas que ambos saibam reconhecê-los quando chegam. E que, em vez de se frustrarem com a falta de sincronia, riam do desencontro. Porque o casal que aprende a voar com esse jet lag não desperdiça a viagem: a transforma em uma aventura. Entendem que o térreo não funciona com a pontualidade britânica e que isso não exige horários rígidos, mas sim disposição.
Então, quando um chega procurando um café e o outro exige uma pista de pouso no meio da noite, não encare isso como uma tragédia, mas sim como uma piscadela do corpo: um lembrete de que o desejo não obedece a relógios, ele obedece ao desejo. E que, mesmo que pousem em horários diferentes, sempre haverá uma pista para decolarmos juntos . Até logo.
eltiempo