Ordem dos Médicos alerta para impacto de tarefeiros nas urgências e cesarianas

A Ordem dos Médicos alertou hoje que o recurso a tarefeiros é necessário para o funcionamento das urgências de obstetrícia e ginecologia no SNS, mas é disruptivo para os serviços e tem impacto na taxa de cesarianas.
“Esta política dos tarefeiros neste momento é necessária, mas é disruptiva para os serviços”, afirmou o presidente do Colégio de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos (OM), salientando que no Algarve 65% da atividade é assegurada por médicos prestadores de serviço.
Numa audição na comissão parlamentar de Saúde, onde foi ouvido sobre o aumento das cesarianas no Serviço Nacional de Saúde, a pedido da Iniciativa Liberal, Carlos Veríssimo Batista, afirmou que já alertou várias vezes a tutela para a necessidade de “arranjar outro mecanismo”.
De acordo com o especialista, a elevada utilização de tarefeiros afeta a organização das equipas, a aplicação de protocolos e a realização de reuniões clínicas. Contudo, recentemente houve “uma certa melhoria” com a criação das urgências regionais de obstetrícia e ginecologia na Península de Setúbal e no Hospital Beatriz Ângelo, em Loures.
O responsável da OM alertou também que a pressão médico-legal e o aumento da litigância podem levar ao afastamento de profissionais do SNS e a uma maior prática defensiva, fatores que podem reduzir a tolerância ao risco clínico, sobretudo em equipas menos experientes, podendo estar associados a uma maior opção por parto cirúrgico em determinados contextos.
Outros fatores que influenciam a prática obstétrica são o aumento da idade materna e a presença de mulheres migrantes provenientes de países com taxas historicamente mais elevadas de cesariana.
Carlos Veríssimo Batista apontou também o aumento de comorbilidades associadas à idade materna e à evolução dos perfis reprodutivos, alertando para situações de grávidas que chegam à urgência sem vigilância adequada.
Foi também destacada a importância dos médicos de família na vigilância das gravidezes de baixo risco, sendo que nesse âmbito está a ser desenvolvido um trabalho com a Ordem dos Enfermeiros para reforçar o acompanhamento das gravidezes.
Em 2025, o SNS bateu um recorde de cesarianas (mais de 22 mil, +5%), com os hospitais das regiões Norte e Alentejo a registarem os números mais elevados. Estes valores agravam para 33,2% o peso das cesarianas no total de partos no serviço público.
O responsável afirmou ainda que a falta de uniformização dos sistemas de informação entre hospitais limita a análise nacional dos dados, defendendo a criação de uma base de dados nacional para consolidação da informação clínica.
Jornal do Algarve




