As marcas ocultas da infertilidade: 4 em cada 10 pessoas vivenciam traumas

Para quem sofre com infertilidade, tentar engravidar pode ser um processo traumático. E mais do que se imagina. Um estudo recente aponta que 41% das pessoas com infertilidade preenchem critérios de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
Muitas vezes, a infertilidade é vista apenas como uma dificuldade médica, mas existe um sofrimento emocional importante envolvido. O desejo de ter filhos está muito ligado a sonhos e realizações pessoais e familiares.
Quando esse sonho não é alcançado, sentimento de culpa, inadequação, impotência e isolamento emergem. E mesmo ao buscar tratamentos, o paciente frequentemente vive ciclos repetidos de expectativa, ansiedade e frustração.
Dos 590 participantes da nova pesquisa, 9% preenchiam critérios para TEPT e 32% para TEPT complexo. O primeiro é caracterizado por sofrimento persistente relacionado a uma experiência traumática, frequentemente acompanhado de sensação constante de ameaça e fuga de situações que remetam ao trauma.
Já o TEPT complexo inclui efeitos mais prolongados e severos, como dificuldade para regular emoções, visão negativa sobre si e impacto nos relacionamentos.
Segundo relato dos participantes, desgaste emocional contínuo, sensação de falta de controle, falhas repetidas no tratamento e perdas gestacionais estão entre as experiências que contribuíram para respostas traumáticas.
Os participantes ainda relataram sofrimento relacionado à condução dos atendimentos. Cerca de 61% afirmaram que o cuidado recebido agravou o sofrimento emocional. E apenas 16% disseram que profissionais de saúde abordaram diretamente questões relacionadas ao trauma durante o acompanhamento.
Isso reforça a importância de clínicas que adotem uma abordagem multidisciplinar e centrada no paciente. Não basta olhar apenas exames e taxas de sucesso. O acolhimento emocional, a escuta ativa, a transparência nas informações e o acompanhamento psicológico adequado fazem diferença.
Na reprodução humana, é fundamental entender que estamos lidando com sonhos, expectativas e vulnerabilidades profundas. Os pacientes reorganizam a vida em função desse sonho, com mudanças financeiras, profissionais, físicas e emocionais. A cada tentativa existe esperança. E cada frustração pode ser vivida quase como um processo de luto.
O reconhecimento desse sofrimento representa um avanço importante dentro da medicina reprodutiva. O tratamento em si não é o problema. Pelo contrário: ele representa, muitas vezes, a possibilidade real de realização do sonho de ter filhos.
Cada vez mais entendemos que saúde mental também faz parte do tratamento da infertilidade e deve ser cuidada com a mesma seriedade que os aspectos físicos.
*Rodrigo Rosa é ginecologista obstetra especialista em Reprodução Humana, diretor da clínica Mater Prime e do Mater Lab e membro da Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) e da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH)
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