Simone de Oliveira: "Aquilo já não é o Festival da Canção...

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Começa agora mais uma Comissão de Inquérito da Rádio Observador. Esta manhã é com enorme gosto que recebemos Simone de Oliveira. Bom dia, bem-vinda. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Olá, bom dia. Muito obrigada por se lembrarem de mim.
Bom dia.
Bom dia.
Temos cinco perguntas para lhe fazer. Cada resposta certa vale cinco pontos. Se pedir a nossa ajuda e acertar, recebe dois. Vamos a isto?
Vamos a isto.
Vamos lá, Simone de Oliveira.
Vamos lá então. Se está preparada agora para uma primeira pergunta. Vamos começar por falar do Festival da Canção e vamos perguntar se se lembra quem é que venceu o primeiro Festival da Canção aqui em Portugal, em 1964.
Acho que foi o António Calvário com "Ora é tarde".
Claro que sim. Foi logo uma canção muito importante e que agradou muito aos portugueses. Simone, gostávamos de lhe falar sobre a polémica deste ano do Festival da Eurovisão, com a participação de Israel. O que acha? Acha que a RTP fez bem em participar?
Olhe, minha querida, eu acho que canções são canções, guerras são guerras, birras são birras. Acho que o Festival da Canção é uma coisa que deve continuar. Claro que Israel é um ponto de discórdia terrível. Agora, se começamos a misturar tudo, um dia não dizemos bom dia uns aos outros, porque é capaz de ser boa tarde, é capaz de ser boa noite ou sei lá. Agora, o Festival da Canção. Eu vi o festival todo. Aquilo já não é um festival da canção, aquilo já é uma coisa que eu nem entendo. Olhe, é um grande espetáculo televisivo. Sinceramente, eu não gostei de nenhuma canção.
Nem da portuguesa?
Repare uma coisa, minha querida. A portuguesa, para mim, eles são ótimos, maravilhosos, mas não tem nada a ver com o conceito de Festival da Canção, desculpe, da maneira como ele é feito hoje. Se me dissesse que eles tinham ido há 10 anos, com o maior respeito que eu tenho, adoro o Alentejo, fiz uma telenovela no Alentejo, em Beja. Apanhei 40 °C à sombra. Deixei, não havia água, não havia nada. Não tem nada a ver.
Não é uma canção de festival. Do festival de hoje.
O festival de hoje é outra coisa. Aliás, todas as canções do festival eu não gostei de nenhuma, porque aquilo não são canções. Aquilo é um espetáculo. Eu não me lembro de nenhuma canção.
Nada fica? Acha que as canções que levou ao festival hoje em dia já não tinham o mesmo impacto?
Não, o festival é outra coisa hoje, não vale a pena fazer comparações. Aliás, não vale a pena fazer comparações com nada do que se passou no mundo de há 24 horas para cá, porque é tudo diferente. Eu acho, portanto, a sensação que eu tenho é que o mundo enlouqueceu.
Mas Simone, há nove anos, o Salvador Sobral ganhou o Festival da Eurovisão a única vez com uma canção muito diferente dos padrões atuais.
Está bem, mas aquilo era uma canção. Eu neste festival não me consigo lembrar de nenhuma canção. Lembro-me de barulho, lembro-me de pessoas a saltar, lembro-me de palcos, sei lá, bonecos. Sabe que eu começo a pensar qualquer dia: não sei o que é uma canção.
Acha que a componente cénica e de performance é mais importante neste momento do que a questão musical?
Claro.
Muito bem, Simone. Cinco pontos na primeira questão. Vamos continuar a olhar um bocadinho para o passado, para a segunda pergunta, que é esta: "A Cantiga é uma Arma" é uma canção de intervenção, foi escrita em 75. A pergunta é: quem compôs essa música?
Ai, meu Deus do céu, foi um português.
Foi um português, sim senhor.
"A Cantiga é uma Arma", foi o...
Está na ponta da língua.
Caramba.
Escreveu tantas ele.
Nós vamos dar-lhe três opções. Vai ver que assim se vai lembrar.
Vamos a isso, três opções, então. Fausto, Fernando Tordo ou José Mário Branco.
José Mário Branco.
Exatamente.
Certíssimo, 75. E acha que, apesar dessas diferenças todas, nomeadamente no Eurofestival da Canção, como acaba de dizer, acha que hoje em dia, Simone, a cantiga continua a ser uma arma?
Acho que se for uma canção como poema, como deve ser, com música, pode ser uma arma. Agora, se for, desculpe, aquela merda, não. O festival todo, eu peço desculpa ter dito isso.
Não, absolutamente.
A Simone pode tudo.
Nove horas da manhã e o meu cérebro está claro.
Está sem filtros.
A única coisa que me espanta: nós temos cantores, não estou nada contra os rapazes do Alentejo, adoro o Alentejo, fiz uma telenovela no Alentejo. Vão ver o pulo do lobo, que ninguém conhece no Alentejo e eu conheçoNão tem nada. Se nós temos gente a cantar canções que estão integradas dentro daquele contexto, aquilo é uma coisa que, Maria Santíssima. Lembre-se de alguma cantiga. Eu não me lembro de nenhuma, não gostei de nenhuma, não me lembro de nada.
Mas hoje, se quiser, em termos de intervenção política, nós tivemos um período da nossa história que a Simone também protagonizou.
As pessoas ricas são então, quem faz um filho falso pelo gosto de o matar.
Exatamente.
Também houve polêmica na altura.
E o José Azalia de Santos, que escreveu muitas dessas músicas.
Eu sei. Conheci-o bem.
Claro.
Conheci bastante bem, um grande amigo.
E a música teve um papel importante em termos políticos.
Naquela altura, repare uma coisa, se nós andarmos para trás, esse é o tempo do Toro, do Paulo de Carvalho. Neste momento, há gente a cantar muito bem. Agora, são umas cantiguinhas. Ai, meu Deus do céu, cala-te, Maria. Está tudo a pedir desculpa de ter nascido. Eu peço desculpa de ser isto, mas eu sou isto. Não sou capaz de ser outra coisa. Há gente a cantar muito bem. Nós temos a Mariza Lins a cantar muito bem.
O que é que ouve, Simone? Que música ouve?
Olhe, como sabe, eu estou na casa da Batita, não tenho rádio. Eu gosto muito de ouvir concertos, vejo muita música. Eu gosto de ouvir ópera, gosto de ouvir concertos, gosto de ouvir pessoas a cantar bem. A minha grande dúvida é: o que é cantar bem? Porque repare uma coisa, eu vi o festival todo. E daquele festival todo, o que é aquilo? Mas tudo. Olhe, sabe, eu já não sei o que é música.
Então vamos mudar de tema. Vamos passar da música para o teatro. Esta é muito simples, Simone de Oliveira. Quem é o ator português mais velho e que ainda está no ativo?
O Rui Carvalho.
99.
Nossa Senhora, então.
A Simone de Oliveira tem uns bonitos 88. Sente que tem recebido o merecido e o devido reconhecimento?
Sim. Não me posso queixar absolutamente de nada. Eu acho graça, eu olho para as condecorações e digo assim: "Eu só cantei. Eu só cantei e representei", mas tenho condecorações de três presidentes da República. Só peço uma coisa a sério, que este não me dê nenhuma, que eu já não sei onde pôr as condecorações.
Mas Simone, o país nem sempre trata bem os seus artistas e nem sempre os reconhece. Aliás, está na Casa do Artista, que é um projeto desenvolvido há alguns anos, precisamente para receber artistas e que nem todos têm, de facto, esse reconhecimento. Continuamos a ignorar muitas vezes os artistas.
Sim. Há uma coisa que eu não percebo. Há muita gente a cantar bem, mas por aquilo que eu me lembro, a única estação que toca música portuguesa é a Rádio Amália. Devia ser obrigatório haver uma porcentagem, e acho que é, mas não é cumprida. Há uma coisa que eu acho: nós temos uma pátria que tem uma língua, que é o português. Eu amo a minha pátria. É o sítio onde eu nasci, é o sítio onde eu vou morrer. Espero que daqui a uns tempos eu vá rever a tua sepultura. Mas quer dizer, de vez em quando, essa pátria é um bocadinho esquecida, às vezes até por razões parvas. Eu acho que temos um povo extraordinário, mas não é só Lisboa, Porto e Coimbra. Há o resto do país todo, que tem características extraordinárias, que tem, por exemplo, todas essas coisas de culinária, são completamente diferentes. Nós podemos fazer disso uma coisa extraordinária, já temos feito isso tudo. Agora, de repente, parece que está tudo zagado uns com os outros, sabe o que é? O dinheiro faz mal às pessoas. É preciso, claro, mas quando as pessoas são muito ricas. Mas nós somos um povo que não tem gente muito rica. E os muito ricos não estão em casa, fugiram todos, coitadinhos. Têm um medo do caraças. Por quê? "Não, deixa-me fazer de conta que não sou rico". E depois há os parvos, que eu não vou falar porque eu posso.
E acha que não valorizamos suficientemente aquilo que é nosso?
Não.
E em particular, no campo da cultura?
Sim, só quando convém. Algum ministro da Cultura fez alguma coisa? Temos um ministro da Cultura? Eu vou perguntar, devo estar um bocadinho parva, não me lembrar.
Mas há.
Temos uma ministra que tem a pasta da Cultura e do Desporto e da Juventude.
O desporto, sim. O desporto, caraças! Pronto. E o resto?
Acha que há um desequilíbrio, nomeadamente dentro do desporto, diria o futebol?
Acha não.
E a cultura.
Eu sou sportinguista, já. Não tenho raivas contra ninguém, sou sportinguista. Achei o Eusébio um homem extraordinário e das grandes coisas engraçadas que aconteceram, foi quando eu era jornalista e não tinha voz, mandaram entrevistar o Eusébio.
Como é que foi essa entrevista?
Foi um bocadinho complicada.
Por quê? O que aconteceu?
Nada, porque ele era um homem muito simples, era um homem muito agradável, era um homem simpático. Eu sei muito pouco de futebol. Sei muito pouco de futebol. Eu sou muito atenta a muitas coisas, mas futebol, sou do Sporting, mas eu não vou entrar nestas guerras completamente idiotas dos milhões que se pagam a futebolistas. Não percebo. Por quê? Está bem, jogam bem, metem gols. Mas as transferências que se fazem no futebol. Se cada vez que se faz uma transferência de futebol, agarrassem 10% desse dinheiro e dessem às pessoas que estão a passar fome neste país, era bom. "Não posso dizer essas coisas, lá vem ela com o feitio dela". Sou eu. Estou a falar de mim.
Isso até nos leva agora... sim.
Mas isso é uma coisa que eu penso, é uma coisa que me enerva, é uma coisa que me irrita. Irrita-me, irrita-me muito.
Sima Bárbara, vamos a mais uma pergunta e vamos continuar essa irritação que diz que sente.
Pela sua risa, que me volta às 09:00 da manhã.
Não, esta é uma capa maravilhosa da Vogue do ano passado com a Simone. Com fotografias extraordinárias.
Eu sei.
Foi o número de que mês da revista? Lembra-se em que mês é que saiu?
Ai, Jesus, Maria.
Se calhar a produção fotográfica foi feita muito antes do mês em que saiu.
Foi.
Foi aí na casa do artista?
Espera só um segundo. Não foi aqui na casa.
Não foi?
Pela sua arnica, que eu levei desde as 16h à meia-noite a tirar fotografias.
Mas valeu a pena.
Valeu a pena.
Valeu. O fotógrafo era inglês, então dizia-me: "Look at me".
E olhou e ficou bem. Então em que mês terá sido?
Em maio.
Vamos dar-lhe hipóteses. Setembro, fevereiro ou dezembro?
Fevereiro.
Não, foi em setembro.
Não, não tenho ideia.
Pois, claro.
Setembro é uma cantiga bonita, por acaso.
Foi em setembro.
Pois é. Simone, sempre passou esta imagem de uma mulher muito forte, que diz o que tem a dizer, muito livre. Isto trouxe-lhe mais problemas do que vantagens?
Trouxe umas duas coisas. Trouxe muitos problemas, mas apesar de tudo, colocou-me numa situação que as pessoas sabem que é alguma coisa que eu não minto. Posso às vezes burilar as coisas para se entender que lá vou eu presa, lá vem a polícia buscar-me.
Mas isto para uma mulher é difícil, não é? É mais difícil para uma mulher do que para um homem.
Eu nasci livre. E tive a sorte de ter um pai e uma mãe, que aceitaram esta mulher completamente ao tempo, completamente contra tudo. "Casar é isto, então vai-me bater e agora eu fico. Ou abres a porta ou eu salto da varanda". Foi tão simples como isso. Mas eu tinha 19 anos. Naquela altura, ninguém fazia isso. As mulheres apanhavam e ficavam em casa. Eu disse: "Ou abres a porta ou eu salto da varanda". E o senhor percebeu que eu ia saltar para a varanda e por isso abriu a porta.
Mas não só saltou da varanda, como fala muito livremente sobre isso, e isso é importante também.
Falo pela simples razão de que eu não aceito a violência doméstica. E tenho a impressão que neste momento, a violência doméstica está a tomar de toros. Mata-se pessoas, matam-se filhos, matam-se pais. O que é isto? Não sei o que é que se pode fazer. Não chego lá. Se eu pudesse. Comigo não.
E em que é que a sua personalidade forte, frontal, lhe trouxe desvantagens?
Ai, todas. De ser chamada ao liceu, dou-lhe um exemplo. Eu tive dois filhos, como toda a gente sabe, e tive a sorte de terem muito bons alunos, coitadinhos, saíram deles próprios, e não à mãe, coitada. Matemática, dois, e saíram-se, tiraram notas extraordinárias. Aí agora estaria talvez já no sétimo ano. E eu fui chamada ao liceu, à diretora de ciclo, e disse: "Ei, o que é que aconteceu?" E ela faz-me esta pergunta: "Explique-me, minha senhora, como é que a filha de uma mulher que usa decotes, fuma e se deita às 03:00 da manhã, tem a filha que tem?"
E o que é que lhe respondeu?
Qual foi a sua resposta?
E eu disse: "Senhora, é chamar a minha filha para lhe perguntar, que eu não sei responder". Isto foi-me dito assim por uma diretora de ciclo. Eu tive a sorte de ter dois filhos que tiveram de aturar esta mãe meia maluca. O que é que a gente vai fazer?Extraordinário. Não tenho nada a dizer. Eu só digo assim: "Ó filho, agora arranjem-me lá uma neta", porque eu só tenho rapazes, é tudo homens.
Falta uma neta.
Falta. Tenho um bisneto. Eu sou muito antiga, já reparou?
Muito antiga e muito sábia. Simone, vamos ver se se lembra aqui da resposta. Eu acho que esta é facílima. Qual o primeiro verso da canção "Sol de Inverno"?
"Sabe Deus eu que..."
Ah.
Pode continuar. Não precisa só ficar no primeiro verso.
Então vamos lá, Simone, em termos profissionais, o que é que gostava de ter feito e não fez ou ainda não fez?
Não farei mais nada. Quando fiz o espetáculo no Coliseu, acabei com aquela sensação de vamos acabar, para sair pela porta larga. Deixar um perfuminho agradável, ter a voz no sítio, não fazer papeteiras. Foi essa a minha escolha. Tenho uma saudade lavada. Isso aprendi com o Silveira. Foi um senhor que me acostumou durante uns anos. Não custa nada dizer. Eu tenho uma saudade lavada, as minhas rugas não me afligem nada. Era incapaz de fazer uma plástica. Era incapaz de pôr botox. Já usei salto, agora não uso. Tenho a cabeça toda branca, adoro. Era incapaz de pintar o cabelo. Eu fui aceitando as coisas. Não quer dizer que haja umas coisas, às vezes as artroses doem-me, dá-me vontade de lá beber umas grandes asneiras. Não digo, sou bem-educada. Claro que há umas coisas. Eu usei saltos, não gostava. Eu fui aceitando a minha idade, porque eu tenho a obrigação de ser uma mulher feliz. Tive uma vida boa, com coisas muito complicadas, problemas de saúde, levados de pés juntos. Tenho uns filhos ótimos, tenho netos ótimos, tive uns pais ótimos. Eu tenho três condecorações de três presidentes da República diferentes.
Portanto, é um balanço largamente positivo.
Positivo, quer dizer, para dizer que não há, você está a morrer. Sabe uma coisa? É que não sei o que está do outro lado, ninguém me vem cá falar com o pessoal. Expliquem-me. Tenho, sou muito honesta. Não me apetece nada. É que não está nada a acontecer. Eu sei que vai acontecer, sei essas coisas todas.
Mas que venha longe, venha tarde, não é?
Venha, venha longe. Agora para meter uma graça, eu falando com a minha filha, eu disse assim: "Olha, quando a mãe estiver menos bem, eu quero ir daqui pra Igreja de Alvalade", porque Alvalade foi a primeira que eu entrei. Meu filho vive na mesma casa dos meus pais. Eu entrei pela primeira vez, tinha 12 anos. E em frente a tropa fazia grandes coisas com os Eros, engraçado. Eu olho para aqui e dei esta graça. E a Lídia fica a olhar pra mim e disse assim: "Ó mãe, o que é que eu faço às condecorações?" Eu disse: "Lá tenho eu, mas não posso tirá-las". Elas às vezes é que são passadas da basílica. Ria ela de um lado, ria eu do outro. Digo assim: "Para dizer pela tua, lá tenho eu de ir pra merda da basílica". Ela ria tanto que disse: "Ó mãe, não me passa, fala-me dessas coisas". Ela não me disse nada, ela fez, as condecorações estão aqui. Fala assim: "Ó mãe, o que é que eu faço às condecorações?" Eu digo assim: "Pronto, lá tenho eu que ir para a basílica". Estrelei-me a rir.
Simone de Oliveira, foi um gosto enorme contar com a sua presença nesta comissão de inquérito. Muito obrigada.
De nada.
Muitas felicidades. Obrigada. Um ótimo dia para si. Muito obrigada, Simone de Oliveira.
Obrigada. Bom dia. Obrigada.
observador



