Angolanos pedem recuo no aumento do preço dos combustíveis

Centenas de angolanos participaram este sábado, em Luanda, numa marcha pacífica contra a subida do preço do combustível e para pedir ao governo que recue nestas medidas, que “adiam os sonhos” dos cidadãos.
Às 13h30, a marcha arrancou, a partir do cemitério de Santa Ana, local de concentração, onde compareceram centenas de manifestantes para expressarem sentimentos e preocupações, destacando-se a presença de alguns deputados do grupo parlamentar da UNITA, maior partido da oposição, e rostos da sociedade civil.
No percurso, por alguns instantes os manifestantes realizaram uma paragem em frente ao comando provincial de Luanda da Polícia Nacional, apelando para a libertação do ativista angolano Osvaldo Caholo, detido pelas autoridades “por indícios fortes da prática de crimes de rebelião, instigação pública ao crime e apologia pública de crime, consubstanciado na produção de uma ‘live’ em direto, onde fez graves ameaças contra a integridade de oficiais generais, comissários entre outras entidades, segundo uma nota do Serviço de Investigação Criminal (SIC).
Em cartazes podia ler-se: “Os Pratos estão Vazios, a Coragem está Cheia”, “A Fome não Espera. A Nossa Paciência tem Limites”, “O MPLA é o Câncer do Povo”, “Gasóleo Sobe, Nós Caímos“.
Vários manifestantes, na maioria jovens, percorreram, sob forte aparato policial, cerca de três quilómetros, rumo ao Largo das Escolas, onde terminou o protesto.
No início deste mês, o governo angolano subiu o preço do gasóleo, passando de 300 para 400 kwanzas por litro (de 28 para 37 cêntimos), alteração que se realizou no âmbito do processo de remoção gradual dos subsídios aos combustíveis, a decorrer desde 2023, para alinhar os preços com os valores de mercado até ao final deste ano.
Em declarações à Lusa, Dumilde Malongui, estudante, disse que aderiu à manifestação para expressar o seu descontentamento contra as políticas do governo que têm afetado de forma negativa a vida dos cidadãos.
“A subida do preço do combustível é recuar o sonho dos angolanos, adiar os sonhos, por ter uma repercussão muito negativa na vida do povo”, referiu, apontando como consequências o aumento dos preços a todos os níveis.
Além do aumento do preço dos combustíveis, é também uma preocupação a subida das tarifas dos transportes e das propinas escolares, frisando o aumento das despesas com a alimentação, num “desafio enorme” para as famílias.
“Estamos aqui para manifestar este descontentamento, não como uma afronta ao governo, apenas para despertar o nosso Governo”, apelando as autoridades a terem “bom senso e recuarem nas suas medidas”.
Bruno da Foto é outro jovem que aderiu à manifestação devido “ao preço absurdo do combustível”, com um país cheio de “recursos suficientes”.
“[Temos] Muito petróleo, não se admite este preço”, disse o manifestante, considerando que não se pode comparar Angola a outros países, com realidades diferentes.
“Se na África do Sul o litro do combustível custa 800 rands (…) o nível de vida lá é muito melhor que o de Angola”, referiu, lamentando a situação atual em que vive, porque o preço dos produtos subiu.
Com 28 anos, Bruno da Foto disse que nunca teve um emprego formal, vive de biscates, mas pretende “um trabalho que dignifica o homem”.
Um dos coordenadores e organizadores do protesto de sábado, Dago Nível disse que o objetivo principal foi protestar contra a subida do preço do combustível e consequentemente as carências de vida da população.
De acordo com Dago Nível, “há relação muito estreita entre a subida do combustível e a subida do preço do táxi, apontando como a fundamental consequência a medida do governo.
“A população precisa constantemente de se movimentar para conseguir ganhar a sua vida, sobretudo para conseguir o seu pão do dia-a-dia, com a subida do táxi e como temos um salário mínimo indigno, as dificuldades aumentaram, muitas delas têm grandes dificuldades em cumprir compromissos”, frisou.
Dago Nível realçou que os angolanos vivem agora “um afunilar das condições básicas das populações”, o que acaba “criando descontentamentos”.
Esta é a terceira manifestação em sábados consecutivos, que se realiza em Luanda e um pouco por algumas províncias angolanas, contra a subida do preço do gasóleo, das tarifas dos transportes públicos e propinas.
“Nunca tivemos três semanas seguidas de protestos e hoje temos em Luanda e noutras províncias de Angola manifestações constantes e isso, de uma ou de outra forma, é fruto da indignação, da frustração e outras coisas mais, por parte da população”, acrescentou.
Esta manifestação foi organizada pela sociedade civil contestatária, uma plataforma com vários outros movimentos sociais.
O manifesto, lido no final, sublinha que “o povo não suporta e não irá suportar os encargos advindos da subida dos preços dos combustíveis, bem como a subida dos preços dos serviços de táxis públicos e privados. Isto o povo não quer”, destacando que o aumento “é visto pelo povo como uma declaração de óbito”.
observador